Então ele abriu a porta e me encontrará ali, despida e numa posição confortavelmente fetal. Pensei em correr e me vestir. Pensei em fingir que estava saindo do banho. Pensei em parar de pensar só por alguns segundos, tudo desnecessariamente pensado.
Ele me pegou daquele jeito, vulnerável e apenas me perguntou se eu estava bem. Pensei em afirmar positivamente, pensei em dizer que estava apenas deitada despida e isso não faria de mim uma pessoa louca, mas, respondi absolutamente nada. Então ele me perguntou mais uma vez, já entrando, invadindo minha sala, entrando na minha cozinha e abrindo a minha geladeira, eu respondi apenas que sim. Ele afirmou que eu não parecia bem, senti um ar de provocação na sua voz, então respondi que estava apenas pensando na vida e lembrando quando uma vez fui pra uma dessas orgias e me vi assim: fetalmente confortável e vulnerável. Lembrei dos corpos entrelaçados e laçados uns aos outros, lembrei também de como é comum o ler futuro ser algo idiota pra tantos neste grande mundo, ter certeza de algo hoje em dia é algo totalmente out, vai ver que minha mãe e meu pai estão juntos a 40 e poucos anos por pura coincidência, pelo acaso, vai ver que eles se suportam, vai ver que eles se aturam e que acham uma tortura se amarem, a foda deles deve ser a mais monótona de todas ou ainda vai ver que eles nem sabem o que uma boa foda a muito tempo! Isso se chama complexo de nada ele disse,hã apenas falei. Ele me explicou a sua teoria simples e sábia, ele falou que isso se chama teoria de nada e que este nada é apenas a metáfora de tudo, ele disse que é quando tudo dá errado, é quando tudo se transforma em nada e o nada perde todo o seu sentido real, é quando a coexistência não faz sentido e o outro se transforma apenas em um grande mar, onde uma onda é totalmente diferente da outra e nunca se repete e esta é a graça e o sentido de ser mar, não se repetir, não se aturar, não ser um simples mar, é ser o mar.
- confesso não entendo nada desta tal teoria, mas chego a conclusão que eu me transformei em algo diferente do mar, talvez seja aquela lagoa que nos banhamos antes de tudo acabar. Você lembra Antônio?
- Lógico que lembro, uma bela lagoa a água tão quente e calma...
- Pois é acho que eu me transformei nisto, algo calmo e parado, sou límpida, e quem quer pode me ver a fundo sem pedir licença.
Ele acendeu um cigarro e voltou a falar de sua teoria maluca. Entre uma tragada e outra ele explica que nem tudo é tão simples.
- O simples fato de você não ser mar não quer dizer que você é uma lagoa. Você pode ser a pororoca..o nome é esse Manuela?
- Sei lá, a porra da teoria é tua..
- Acho que é isto mesmo, o tal encontro do mar com o rio, o nome é este. Você pode ser conturbado como a tal pororoca, você pode ser límpida e turva, pode ser calma e agitada e ainda assim pode ser o complexo do nada, pode ser o Mar, o nada, o tudo!
Balanço a cabeça e apenas penso em começar a falar o que eu sinto..coisa que não fazia a muito tempo, vai ver que aquela kitnet não me permitia, o meu gato nunca ficava o dia todo comigo, toda a noite ele saia e ia encontrar o seu complexo de nada, a gata da vizinha que ele vivia comendo e que a velha vivia dizendo que ele comia. MAS veja bem, não é por que ninguém me come que eu vou deixar o meu gato sem comer também! O meu gato é minha única companhia, o problema que ele nunca responde o que eu pergunto; A pia que pinga é insuportável, mas, se conserto-a não escuto mais o barulho dos pingos que caem em cada 8 segundos e assim a minha vida perderia o seu ritmo por completo, a geladeira velha tem alguma comida e nenhuma carne, afinal, parei de comer a muito tempo, vai ver que é por isso que ninguém me come, vai ver que é por que eu não como carne. Sei que não é, mas, pode ser. Não é? Prefiro pensar assim. Tenho algumas estantes com os meus livros, já li todos, porém, gosto de tê-los perto de mim, acho que é pra sentir que eu tenho algo.
Depois de alguns poucos segundos apenas começo a falar:
-As pessoas conseguem ler livros, mas, não conseguem ler pessoas, não que eu queira ser lida, devorada, deglutinada e depois cuspida, vomitada como fazemos com os tais livros de filosofia e esses temas sem nexo algum e que não usamos pra nada. Acho que ler pessoas seja bem mais interessante do que ler pensamentos já formulados por outras pessoas!
- Calma ele diz. Você adorava ler, o que aconteceu com você?
-Você não está entendendo, eu não deixei de ler ou nada parecido, apenas acho que temos que olhar mais pro outro, mais para os olhos, mais pra dentro. Acho importante a tentativa de aproximação por leitura sua e não por leitura sua de pensamentos alheios! Que se foda Caio,Clarice,Camões e todos os outros que já cansei de ler de A à Z,. Apenas quero começar a ser lida...sei sei, afirmei a pouco tempo que não queria, mas , a verdade, a mais pura e linda verdade é que eu clamo todos os dias pra que alguém comece a me ler. O que restou depois de ler todos essas livros que nem no lixo consigo jogar? Respondo-te Antônio, nada! Acho que nós poderíamos ter dado muito certo, acho que nós poderíamos ter sido uma família feliz..não feliz,feliz não, poderíamos ter sido uma família normal, e que assim como os meus pais poderíamos estar deitados na mesma cama nos amando sem amar, sem nem mais saber o que é sexo, contudo sabendo o que seria o amor!
Eu vi que ele engoliu seco e nem sabia o que responder. Ele tenta balbuciar algumas palavras mas, nada saia...Apenas algumas palavras soltas, você,eu, bem, nós.
-não diga nada meu bem, não me diga nada, não quero escutar o que tens pra me dizer. A culpa foi minha não foi?
- Também não é assim.
- Para com isso Antônio, pelo menos uma vez me diz que eu tava errada e que eu devia ter dito tudo que você queria escutar e tudo o que eu queria dizer! Por que você não fala simplesmente?
Ele me fala simplesmente que depois daquele dia que teria sido o ultimo a nos amar, o dia em que eu percebo equivocadamente que não poderia amar ninguém, que não poderia ser de ninguém e este ninguém também não poderia ser meu, neste dia ele pegou um trem sem destino e foi parando de estação em estação e quando ele chegou ao ponto final ele se viu ali, no final dele, em um lugar onde nem ele acreditava poder chegar. Ele como um homem forte que sempre foi, se viu perdido na escuridão de ser, de existir, de coexistir. Encontrou alguns dias depois uma bela moça e que depois de algumas semanas transaram, e que naquele dia ele teve ainda mais a certeza de que eu era a mulher da vida dele, ele não sabia o que fazer com esta descoberta, pensou em me falar muitas vezes, mas sempre que pegava o telefone para ligar e apenas redizer, reafirmar tudo o que já foi dito ele desistia. Ele se achava co-autor disto esta acontecendo, ele se achava culpado em não ter me dito que a única mulher a qual ele conseguia gozar e depois acender um cigarro e dizer que amava era eu. Depois desta realidade com a bela moça ele tentou com algumas outras, mas não deu muito certo e ele preferiu ir, seguir a sua vida fingindo estar tudo bem, dissimulando sorrisos, abraços e afetos, nunca falava de amores, mas falava de dores com certa freqüência.
Eu levanto vou a sua direção dou um belo beijo no rosto e apenas digo:
- Pena que já se passaram 20 anos e o meu telefone não tocou, até tocou , mas nunca recebi este telefonema, pena que fingimos por tanto tempo sermos apenas bons e velhos amigos que tem a chave do apartamento do outro, pena que fomos casados separados, pena que sempre tivemos um ao outro e nunca tivemos ninguém, nem a coragem sequer de tocar neste assunto! Pena que não vivemos em contos de fada onde eu deveria te beijar a boca agora e assim seriarmos felizes para sempre. Que pena, que bela pena!
Ele me beija a testa e quase como um súbito decidi ter que sair com uma pressa que à 15 minutos atrás não parecia existir. Eu o abraço peço desculpas e vou ao meu quarto..não o vejo sair, ele apenas fecha a porta e se esvai.
Minutos depois o telefone toca, eu atendo, era uma voz ofegante, cansada, parecia que o dono daquela voz teria corrido quilômetros, horas, anos. Era ele, o Antônio, pergunto se aconteceu algo, se ele estava bem.
- Com 20 anos de atraso te ligo apenas pra dizer que você é a mulher da minha vida e que só consigo gozar e em seguida acender um cigarro e falar EU TE AMO, pra você. Sendo assim, estou disposto a te aguentar quando você não quiser mais fazer sexo, quando você achar defeitos na minha forma de dormir, de andar, de falar, de ti engolir, de ti amar! Apenas te ligo com 20 anos de atraso pra dizer que ainda te espero assim como disse que iria fazer a 20 anos atrás, te espero como um retardatalho que espera o trem que está por vir, como um homem que espera algo que ele nem sabe o que é, que só tem a certeza que é algo muito bom, como uma criança que espera o ano todo para ganhar uma bola de presente do papai Noel, não é pela bola entende? É pelo simples fato de ter sido papai Noel. Admito, falhei,deveria ter ti ligado há muitos anos atrás. Muitos. Só queria que você entendesse que eu como mero mortal uso esta ficha nesta cabine imunda apenas pra dizer que eu te amo, de uma forma simples, de uma forma pratica, sem medidas, sem querer achar defeitos neste amor, sem querer sentir dor, mas sei for pra sentir, sinto e tiro algum gozo disto, te amo como um homem ama uma mulher, como uma mulher ama outra, te amo sem nada em troca, te amo por amar entende? Amo-te da mesma forma, te amo do mesmo jeito.
E assim, eu que achava que nem mais sabia amar, sinto o meu coração acelerar e com toda certeza do mundo digo: Antônio eu te amo.