domingo, 12 de maio de 2013

Garganta

Na garganta fica só o gosto de sangue, as vezes o gosto do gozo. Na garganta fica os versos não ditos, os assobios desmedidos que o vento levou.  Na garganta fica o ranço, fica o ranço. Na garganta fica o grito calado. O choro engolido. Fica o não, não dito. Na garganta fica o eu te amo entalado, na garganta fica os vícios de linguagem, a fumaça e a traça que paulatinamente vai corroendo tudo que antes era possível ver. Na garganta fica somente a traça. Na garganta fica o gosto único de quem passou. Na garganta fica o gosto do amor, vinho e cigarro. Na garganta fica o pigarro. Na garganta fica o gosto de outrem, fica o gosto de ninguém. O ninguém fica entalado e calado segue a vida. Na garganta fica toda a vida, fica a vida que antes minha agora tua, fica a outra vida, fica o outro eu, fica tudo que é meu, fica tudo que entalado ficou, fica o que não passou, na garganta fica apenas o que não era pra ter existido. Na garganta fica tudo que foi perdido, na garganta nem cabe mais você.

Paula do Vale