quinta-feira, 14 de maio de 2015

Pathos

Então eu sabia; era paixão. Nada era planejado naquela estância. Nada programava-se ali. As coisas aconteciam em fluxo comum a vida, como tinham que ser. E era. No entanto, o questionamento que ficava em mim era: quando isso aconteceu? Por que o permiti? Como se de fato existisse uma resposta para tal pergunta. Isso acontece ainda que não se queira. E não sabia se tinha sido naquele instante ou nos outros que viriam. Ou nos que passaram. Eu tinha o dom de imaginar futuros com coisas que valiam a pena imaginar. Nada programado, mas, costumava imaginar toques futuros e as sensações e calafrios que isto ocorreria à minha pele. E sempre que imaginava ela em uma manhã qualquer em um lugar mais aleatório ainda, sentia aquele gelar vértebras, ossos, músculos e o aquecer da alma. E existindo o aquecer da alma, poderia ter surgido a semente de estar paixão. Talvez tenha sido ai a ciência do desastre de um. O meu. Paixão. Pathos do grego. Doença. Catástrofe. O sujeito que à acomete deseja tê-la tanto quanto um leproso a lepra. Ninguém o deseja ser, pelo óbvio do ser. Ninguém deseja ser apaixonado, como se isso fosse uma condição permanente do existir. Preferimos dizer: estou apaixonado. Porque todos sabemos que é uma condição mutável. Ser e estar se confunde entre o permanente e o mutável. Eu estava paixão. Não à era.

A questão que pairava naquele minúsculo espaço de existência, era como curar-me de mim. Ou da condição de estar.  Ou do desejo de ter o motivo patológico para se estar. Ou do querer afago permanente que não era humanamente possível possuir. Sendo Pathos, era preciso a cura para. E não existia. A cura provável era ter, ou o tempo como senhor rei, eram os únicos aliados para tal destruição da enfermidade milenar. Então o dava e a tinha. Parte ter. Parte tempo. E até que a cura ocorresse, eu tomava pequenas doses dela; e ela era o objeto da paixão, e se você a visse como eu a vejo, também o estaria. E de cada gesto, o tal sorrir com a boca escancarada era o que mais tombava tudo aqui por dentro. Abalos sísmicos por dentre as rochas que existem em mim. Cataclísmico. A cada abrir dela, era como se portas e janelas também se abrissem em mim, e um sol, desses que pede praia,  entranhasse cada comissura que existia. Invadindo fresta por fresta até tomar conta de todo o espaço que antes vazio. E cada preenchimento desses espaços vazios, com sua resplendência, era tão mágico que você também desejaria nunca parar, se você também fosse capaz de ver o que eu vi. 


Porque ainda que patologia, paixão é indubitavelmente o maior exemplo de vida. De viver e de querer ainda mais; ainda que no estado de passagem. De estar. Ela é o real paradoxo do querer e não querer. seguir e ficar. Se entregar e lutar até a ultima chance para não. E se eu fosse redefini-la ou ressignificar seu total conceito, diria que paixão é o encontro de um olhar que gosta de ver, com outro que gosta de mostrar. Mas que nem sabe como. Iria definir como um tentar ler pelas retinas todo o significado do encontro e do outro. E esse querer descobrir o outro pelos olhos e toda a sua poesia, é o que aguça ainda mais o estar. Que o perdura.  Iria dizer que talvez paixão fosse apenas o ver coisas que ninguém reparou, mas, que você, que a possui, as sente. Paixão talvez seja apenas o piscar da vida para que a gente entenda que ainda no não possuir o outro, somos capazes de ver cheiro, sentir cores e  ouvir sensações, apenas no pensar. Somos capazes de ir onde ninguém foi capaz de ir, mas nós vamos. Os patologicamente apaixonados são os que vão onde todos querem fugir, e chegando, entendem que é na sua própria doença, que mora a maior segurança do mundo: o outro.