terça-feira, 2 de maio de 2017

Primeiro encanto no encontro


já era tarde e ela que chegaria pela tarde ou começo da noite ainda não chegará. Estava tudo bem para mim, mas o peito de alguma forma já dançava uma valsa de um jeito descompensado dentro da caixa torácica. Uma dança que tinha um ritmo dele e me embalava de algum modo. A cada piscar vinha em mim a dança dela. Valsa. Era uma valsa tão particular e tão dela que o peito talvez quisesse reproduzir, mas como eu sou sem jeito, virou algo meu. Descompensado. Com um ritmo meu. Até que ela chegou, sabe? E o peito que antes dançava em um ritmo meu. E só meu. Sumiu. Ela chegou, entende? Não, não que eu tenha estado inerte ao acontecimento e ao encontro, é que ali já não morava mais o possível. Já era, entende? E dai eu fui. Seguindo a cada degrau e me esvaziando do "e si" e enchendo de é. A cada degrau, era como um passo diferente. Diferente e em ritmo gradual. Subia. Seguia. Na verdade, já tinha iniciado a obra e a valsa antes mesmo de subir ali. Já tinha dado inicio a tanto tempo atrás que nem me dava conta, sabe? Você de alguma forma já deve ter encontrado alguém assim. Meio poesia, meio valsa, toda arte. Já? Não? Enfim, ela era isso. E me transformava nisso também. Poesia. Valsa. Me transformava nesses balés anuais em turnê limitada. Ela era edição limitada dessas turnês caras, e só são caras porque de alguma forma se tornam escassas. É, é exatamente isso. É na escassez que as coisas ganham valor. Isso mesmo. Mas voltando ao que eu falava. Ela tava lá e eu tava indo. Sempre vou ao. As vezes não. Mas geralmente sim. Mas eu gosto. Eu amo ir ao. Por que amo? É que eu me imagino em um desses filmes onde as pessoas reencontram as outras e de alguma forma mágica as coisas se acertam e tudo fica bem. E mesmo quando as coisas não estão tão bem assim, no fundo tão. Porque as pessoas se reencontram e se abraçaram. O abraço é mágico. Sempre é. Voltando ao que falava, por favor não atrapalha. Ela estava lá e eu em alguns momentos também estaria e dai eu me imaginei como falei pra você em um desses filmes. Mas na verdade me imaginei em um dessas peças de balé cara e rara. E estávamos ali em um segundo ato. Eu imaginava exatamente isso, fim do segundo ato onde só seria finalizado quando nos reencontrássemos e ela fizesse seu solo. E aconteceu. Nos olhamos e nos abraçamos. Fortemente como sempre. Sim, tal qual como nos filmes que te falei. E como em toda peça de dança. E estávamos ali no fim do segundo ato, finalmente começou o solo. Ela era a solista. E sempre que a via assim imaginava isso. Dança. Ela era bailarina dela mesma e em sua própria peça. Ela era a sua própria peça, sim. E o seu solo, esse que te digo, era como um pocket de toda a sua obra. Calma! É que ela pra mim, sempre digo pra mim tá? Porque pra mim tudo sempre é isso mesmo. Poesia, sim. Já disse. Calma. Enfim, é que ela sempre amarra os cabelos na superfície de si e neste amarrar, o caminho para isso, era dança. É balé caro e raro. Não! Não é loucura. Eu juro que se você a visse amarando delicadamente cada fio, como quem foge de ter o rosto tapado por eles, você entenderia e também veria isso: dança rara. Bela. É que ela delicadamente abria os dedos e levava ao encontro dos cabelos, ela afaga suavemente a nuca, como quem em um reencontro. Nesse caso, da nuca com a brisa. Ela lentamente enrola cada fio.E dá um nó. Como quem diz que é pra permanecer unido, mas quando não for mais pra ser a união, tudo bem. E assim é. Afrouxa devagar e com o movimento e em seguida o mesmo ballet de braços é formado. Os cabelos são cuidadosamente recolhidos e levados ao topo, a nuca recebe a brisa novamente em uma ciclo infinito. É sim. É lindo de assistir. Você também veria ballet e beleza nisso. E assim acabou o segundo ato, começaria o terceiro e lentamente a tal valsa descompensada voltava a tocar no peito e pra mim tudo bem. Porque é sempre assim antes do fim e perto do recomeço da dança dela. Entre um e outro existe eu que ali recomeçava a dançar sem passo nem poesia. Sem balé caro ou qualquer coisa assim. Sou guiada sempre pelo peito dançando qualquer coisa que ele diz ser valsa. Que não é a dela. Mas pode ser.