A vida é um sopro, menino. A vida é um soprar. E tolo é aquele que não sabe voar. Ele era um anjo, menina. Só queria voar. Tinha uma asa quebrada, que pena, mas sabia cantar. A vida é um sopro pra quem pena, a vida é o soprar. Ele era cheio de traço, desenho a mão. Era amor e irmão. Homem e mulher. Ele era a dicotomia crônica de um jovem aprendiz. Ele era o beijo suave na madrugada chorosa. Ele era abraço amigo em todas as horas. Ele foi o primeiro. O único. O verdadeiro. Era fruto bom em um mundo ruim. Descrente que isso aqui poderia melhorar, e sempre esteve certo. Ele era luz. Inspiração pra esse mundo careta. Ele era amor. Amar. Mar sem fim. Era como um pássaro preso em uma gaiola, clamando liberdade. Era coração partido e bem remendado. É tanta paixão. É arte. É o pulsar de pinceladas de perfeição imperfeita. Porque tudo que é muito certo, é um saco. Era meu amigo marido. Piada pronta. Bom dia musical. Canal de esperança pra mim, que já nem tinha tantas. Era amor de madrugada. Era ronco no ouvido. Meias trocadas. Apertos também. Era cabana secreta em um quarto feio e frio. Era o meu grito de alerta. Era a minha salvação. Ele me salvou de mim. De meus monstros embaixo da cama e de mim. E eu o odeie por isso, mas o amei ainda mais. Era indagação. Interrogação. Porque eu colocaria uma criança em um mudo assim? Era areia do deserto sem fim. Ele é o finalmente reconhecido motivo de minha pouca fé, pouca reza e infinita esperança de transformar essa bosta de mundo, um lugar digno de meus filhos estarem. Essa foto. Ele amou essa foto. Dizia que tinha ficado com cara de super star. Ele era meu fotógrafo. E eu era a dele. O mundo era pequeno pra ele, então, ele decidiu voar. Tentou remendar a asa quebrada. Deu dois passos e foi. E tá por aí, voando até sua asa quebrar mais uma vez, mas vai demorar.. Amor nem sempre é ditos com palavras, e é desses que devemos lembrar. Mas ele me falava. Me falou. E amou. E eu também. Um urso amoroso colou suas asas e tá agora voando por aí. Menino, vê se aparece.
