domingo, 19 de janeiro de 2014
A saudade nos devora e nos vomita todos os dias. Sem que a gente perceba, somos mastigados como esses bichos selvagens fazem com suas presas. Somos mastigados, Laura. Disse em voz branda diante do reencontro. Laura tinha passado algumas semanas longe de casa, de mim, de nós. Ela me disse que também sentiu saudade, mas que não sentiu as tais mordidas dos animais selvagens. Ela não entedia metáforas, e esse era mais outro motivo de ter tido uma certa paixão repentina. Amava pessoas que falavam e entendiam metáforas. Sempre foi assim. Mas conhecer alguém que não entendia metáforas, mas que também jogava com palavras, era tão incrível como descobrir uma nota de cem, em uma calça velha. Era incrível. Apenas continuei dizendo que senti saudade, usando metáforas e ela continuou sem entender minhas metáforas, mas insistindo de forma literal e sem firulas, que: ficar longe de mim, é como tirar uma perna. Você tenta caminhar de forma rotineira, mas sempre faltará algo. Você sempre será lembrado dessa ausência de algo que você não sabe, pela dificuldade de conseguir caminhar. Ela falou assim, com essas palavras, o que eu com algumas décadas de escritor, jamais consegui falar. Saudade é um retirar de membro, mas ainda que com dificuldade, nunca deixa-se de caminhar. E eu, que já tive vários membro cortados, tenho certeza que caminhar é o melhor pra curar. No meu caso, vou com Laura.