Não me leva a mal, na verdade não me leva a nada. Deixa que eu vou só. É que as vezes me vem aquela tua voz que contava a história do pequeno príncipe. Eu amava sabe? As vezes dormia e as vezes sorria por você fazer a entonação que julgava ser da rapousa ou do pequeno príncipe. Sorria por imaginar você mimando e ninando nossos pequenos e eu nem senti o teu beijo.
Não me leva a mal, nem a sério. Porque o problema é me levar muito pra lá ou pra cá. Sou seria sim, mas sou muito mais risada. Acho que você precisa de alguém que diga que ta errado deixar o sapato espalhado e brigar quando deixar a toalha molhada. Você precisa de alguém que limpe tua bagunça, não que te ajude a bagunçar. Mas não me leva a sério, posso ta enganada e não ser nada disso. Te amo, e as vezes ele cega.
As vezes a gente só precisa de carinho. De amor. De um sorriso. De um puxão de orelha. As vezes a gente precisa de nada e de tudo. Como Cartola dizia: tive sim. Tive sim, um outro amor antes do teu. Mas quer saber? Não comparo, não meço. Não é válido. Não é certo. Amei sim. E talvez o meu erro tenha sido não ter te puxado pelo braço e ter perguntado se mesmo com todas as minhas loucuras, você ainda queria ficar ali. Se você queria ficar comigo, ou não. Queria me amar, ou não. Queria ser minha mulher ou não. Talvez meu erro foi não ter dito que ainda esperava o fim do livro, e só podia ser com sua voz. Que você poderia ler de longe mesmo. Que aqueles quilômetros não seriam nada. Talvez se tu tivesse dito que você foi a única voz doce que me fez dormir, você tivesse entendido tudo o que não foi dito. Sim, não foi dito. Talvez, com tantos talvez, eu só queira entender como é perder algo tão assim. Não me leve a mal, mas você é dessas coisas que prendem atenção. É redenção. É amor. É tanto amor, que até hoje você flutua dentro de mim, e tenha Certeza que já quis te afogar. Te afoguei por diversas vezes, então você se agarrava em alguma lembrança que estava ali, dentro do meu titanic particular, e disse que não afundaria assim. Eu mandava outra tempestade, e você se agarrava a carcaças mortas. Não afundava. Não afogava. Eu aceitava.
Não me leva a mal, mas você me afogou também. E eu afundei. Afundei dentro de ti e de mim sobrou o que? Você. Ainda que louco, que o outro seja nós, sobrou o início. Lembra? Sobrou o início e eu ali pedindo pra ficar. Sobrou aquele olhar. Sobrou você ali. Eu ali. Mas sem nós. De nós, sobrou um eu pendurado na âncora do teu querer e você na proa de ter. Um náufrago bem mau afundado. Sobrou um banco de areia onde o navio encalhou. O navio de nossa relação. Dai, não resta mais nada a não ser, esperar uma nova maré. Mudar a correnteza. O vento há de mudar, bem. Aí a gente ou segura no que sobrou dessa nossa construção marítima, ou se desprende e deixa ela afundar com essa sequência de marés. Não sei. Já coloquei âncoras nos pés, agora espero o tempo mudar. O vento soprar pra outro lado, ou pra esse mesmo. Tou mais forte, sabe? E se você quiser de verdade, mudo até a direção da ventania. Posso ser sempre calmaria, e aceito quando você não for. Além do mais, tem uma rosa, em um planeta desconhecido, que precisa de meus cuidados. Na verdade, um girassol. Mas eu não ligo dos teus sapatos espalhados e toalhas sobre a cama, sorriu. São como sinais: passei aqui. Até das toalhas sinto falta. Até de tuas falas chatas sobre o trabalho. Até sobre esses super heróis fajutos.
É, quando você dizia que vivia em um mundo paralelo, tinha razão. Você vivia em um mundo paralelo, e eu, desvendei teus mistérios. E sim, sou tipo o pequeno príncipe, mas não sou sábia. É, não me leva a mal, mas também não me deixa aqui.