terça-feira, 19 de agosto de 2014

Não volta não.

Feche a porta ao sair, ela disse. Eu deixei-a entre aberta. Como em um surto psicossomático de um ser avassalador, deixei quase fechada, mas ainda aberta. Ela foi, e disse que poderia regressar, dependia de mima, apenas. A pena, por amar demais, talvez seja o ser tão só por entre tanta gente. Por entre tantos ventres. Por entre tantas coxas. Sou uma boa amante, ela disse. Sei dessas coisas de pontos sensíveis, de prazeres compartilhados. Por ser só, talvez saiba o que elas não percebem: toques suaves, é o que queremos. Desejamos ao fim do dia, um beijo na testa. Ao nascer do sol, um beijo na testa. Suave ave de pena leve. Leveza dizem. 


A porta estava ali, entre ela e eu. Ela pegou suas coisas, e juntou tudo em um único compartimento dessas bolsas de aventuras. Disse até breve, se assim você quiser. Eu não respondi. Não poderia, é claro. Ela sorriu, como que com um sorriso de despedida, e partiu. Disse pra eu decidi minha vida, dores e amor. Ela sabe dessas coisas de amor que não cura nunca, como que eu tivesse grandes picos de glicemia. Como que não pudesse fabricar minha insulina. Como se fosse um dependente de agulhas mortas em pontos comuns. Barriga. Coxa. Perna. Não cura nunca, porque é doce, e eu tenho aversão a esse tipo de alimento. Destrutivamente letal aos poucos. Eu sei. O amor é como um doce mel de abelha. Como o néctar para o beija-flor. Como pontas de quebra-cabeça. Amor, é dicotomia. É convergência que diverge. Amor é bem-estar, na tempestade de gelo. Calor quando frio. Frio quando calor. Bebida quando com sede. Comida quando com fome. Amor, alimenta a alma. Desnutre os cheios de si. Paz e guerra. Dia e noite. Encaixe. E não cura, porque é vida. E da vida, a morte. A morte sem morrer. O pedaço tirado, sem tirar. A divisão de si, sem dividir. A viagem sem tirar os pés do lugar. Decidir o que, pequena aprendiz? Decidi se sofro do mal que não posso fugir, ou se finjo não sofrer do mal que jamais vai me deixar? 


Era menos que a metade do dia, e ela seguia firme com a sua decisão. Não a culpo. Alguns muitos dias sem o gozo que antes tivera. Sem corpos suados compondo nossas próprias canções. Sem partes se entrelaçando como um pedaço de fita solto em uma bolsa qualquer. Ela dizia que eu precisava ir atrás do que me perturbava. Que eu precisava dizer que ainda amava, que ainda queria. Sem orgulho, e ainda que soubesse da resposta, deveria buscar a minha prova dos nove. Fui. Perguntei, de forma que não tinha jeito. Não é um pause de um filme de romance. São vidas, e eu não faço mais parte da dela. Ainda assim eu perguntei se ela queria ficar comigo, ter filhos, uma casa no campo e crianças florindo o jardim. Se largaria uma aventura, ou algo concreto, não sei, para ficar comigo. Logo eu, que tanto fiz chorar. Um triste filme. Filme sem fim feliz. Sem começo ou meio. Apenas para mim, que o começo já foi de paixão. Aqueles olhos, aquele cheiro. Pele suave. Gosto doce. forte. Leve. Pena que foi. Não é. Perguntei com toda a coragem do mundo, como quem enfrenta uma batalha com apenas 4 soldados. Eu e mais 3 anos de quase relação fodida. 4 soldados mancos e capengas. Ainda assim eu perguntei: troca tudo e fica comigo? Ela respondeu um sonoro não. E tudo ficou ainda mais estranho. Ainda que soubesse que jamais seria um sim, ter a certeza palpável entre os dedos, é como ter ar e ão conseguir respirar. E ainda assim, eu não falei: volta, porque me resolvi. Não há o que resolver. O amor, não se resolve em 24 horas. Por vezes, dura décadas. As vezes, dura uma vida. Não pra quê voltar, pequena. Você só encontrará esse pedaço de mim. Pedaço maltrapilho de quem ainda ama sem razão. Sem por quê. Porque dizem que a razão é inimiga do amor. Talvez seja amor. Talvez seja loucura. Vai saber. Mas não volta, porque só encontrará eu, perdida em um quarto quase vazio, um amor quase cheio no peito, uma canção quase nova na rádio, uma garrafa de cachaça pela metade e nenhuma esperança espalhada. Volta não, menina. Que o mundo é grande, e se você volta, tenho que mandar você ir. Se você volta, vou ter que falar: jamais poderei te amar. Porque em cada esquina de meu peito, existe uma pichação dela. Uma vontade dela. Um desejo meu pra ela. Volta não, porque se você volta, quem vai sou eu. 

Não posso dizer que eu tranquei a porta, porque ainda tá um pouco aberta, quase fechada, do jeito que você deixou. Mas eu posso te dizer que eu não tranquei, esperando que uma visita chegue hora dessa. Que o homem do leite passe e deixe na porta. Que o pão seja entregue quentinho. Que o carteiro saiba que ainda existe vida aqui. Ainda que moribunda, existe. Se quiser voltar volte, mas o meu gozo continua sendo dela. Meu sorriso é nosso e as lembranças do mundo. Pode voltar até, mas, eu te avisei que você só fica se for louca. Assim como eu.