domingo, 12 de outubro de 2014

Calma rapaz, vai passar

Querer acabar com lembranças, é como querer acabar com parte de sua história. Acredito que quando falamos que vamos esquecer alguém, queremos dizer no fundo, que queremos que a ferida aberta feche-se. Que a dor que é sentida suma, ou continue só um pouco, pra ao menos ter isto consigo. Um pouco de dor. De leve que seja. Queremos que ela vá fechando. Criando casca. Criando uma camada de anticorpos tão potentes, que dias depois, só resta uma pequena cicatriz. Queremos isso: uma pequena cicatriz. A cicatriz, é a lembrança. Do que foi bom e do que não foi. Sim, é preciso lembrar do que não foi bom. Lembrar com um ar de reconstrução. Ou com quem já foi, ou consigo ou com quem vai ser.

É preciso entender, que o tempo, é o principal fundamento pra que um dia você acorde e exista só a cicatriz. Eu, tenho uma cicatriz. Grande. Que toma parte de meu peito, cérebro do lado esquerdo e um pouco ao redor do pescoço. Tenho cicatrizes, e elas me deixam mais forte. Mais cheia de amor e de lembranças. Sim, criamos novas cicatrizes com o passar do tempo. É com o passar do tempo, ficamos mais propensos a ferida curar com mais velocidade. Com o passar do tempo, ela precisa de menos tempo. Menos atenção. Ela se fecha só. Sem muito esforço. A minha ferida, a primeira ferida, digo. Demorou uma eternidade. Tempo suficiente pra eu acreditar que não iria passar nunca. Como se eu tivesse diabetes. Quem o tem, sabe a dificuldade da cura. Cicatrizou. Curou. Passou muito tempo, mas foi. Na segunda ferida, exposta. Menos tempo, mas ainda assim, tempo suficiente pra sentir cada calafrio. Calafrio sombrio. Calafrio de desespero. Uma dor profunda e proibida, de uma infecção generalizada. Foi assim, com o passar do tempo, que entender que é preciso tempo, paciência e algum punhado de anticorpos. A cicatriz forma-se aos poucos. Dia após dia. Da segunda vez, tinha uma ferida exposta. Tão aberta, que poderia colocar dois sóis ali. Desses grandes. Auriculares. Cabia a via láctea, um suspensório, baixo, violão, casa azul, duas crianças no quintal e uma par de sonhos conjuntos. Estava feio. Aberto. Latejava. Mas, como uma pequena cirurgia, fui tirando uma por uma. Pouco a pouco. Como pequenos fragmentos de balas, que grudam na pele.

Lembranças, assim como cicatrizes, precisam ser compartilhadas. A dor, seja qual for, precisa ser dividida. Antes, eu dividia minha dor sufocante, com o objeto desta dor. Objeto, não um termo de uso, apenas gramatical. Dividia achando que Chegaria ao fim. Que iria estancar. O sangue e seu fluxo, iria diminuir. Aquela área afetada, iria encrostar, cair, ou que eu a tiraria. Achava que repetindo infinitas vezes, o quanto doía, iria parar de doer. Iria sarar. Cicatrizar.  Não pra impor  uma resposta do objeto causador da dor. Ou pena. Ou por charme. Era pra tentar fazer com que não existisse dor. Com que ela acabasse. Ao invés disso, descobrir que falar sobre a dor, faz ela doer mais. De forma tão mais intensa, que não imaginava que era possível. Ao Invés de cicatrizar, a ferida abria mais. Infeccionava mais. A cada olhar que eu tirava, dois apareciam. A cada constelação, mais três. A cada expressão facial, aparecia um levantar de sobrancelha. No começo quando isso é a única coisa que te resta, parece ser legal. Uma forma de estar perto de tudo que você sempre amou. Sempre quis ter de novo. Esquece que o objetivo é curar. Depois de um tempo de dor intensa, você entende que algo está errado. Algo precisa mudar, mas não existe mais antibiótico que combata essa infecção e você se vê perdido entre beijos dados e abraços perdidos. A cura parece impossível. Se você que ler, está passando por isso nesse momento, entenda que vai passar. A cicatriz do aparece, quando a ferida fecha. E pra fechar, é preciso não lembrar com tanta frequência de momentos incríveis, noites perdidas. Doenças compartilhadas. É preciso não lembrar tanto, reparem, não falei esquecer. O erro começa ao achar que é possível esquecer. Depois de fazer esse esforço, você vai perceber que o que antes era lembrado com o peso de não mais existir, é substituído pela leveza de ter existido. Você aprenderá a rezar, caso não saiba. Você agradecerá cada momento. Observará cada por do sol. Vai rir de coisas tão bobas, mas tão bobas, que você se achará um perfeito babaca. Mas no fundo, você só estará lembrando daquele tropeço, ou espirro, ou cochilo, ou arroto. Você lembrará dele ou dela, e isso vai ser leve. Você irá amar lembrar. E amará cada vez mais as suas poucas lembranças.

Você não terá um manual de sobrevivência, portanto, tenha paciência. Caso você já esteja tentando fechar uma ferida, tenha calma. Isso não acontecerá de um dia para outro. Ou meses. As vezes leva uma vida. Tem pessoas que conseguem viver com esta ferida aberta. Com o peito latejando. Com as infecções e pouco anticorpo, por anos. Nunca sara. Mas esse não será seu caso, irá sarar. Acredite. Só precisa entender isso: não trata-se de esquecer, apenas de lembrar sem dor. É para lembrar sem dor, é preciso não lembrar tanto por um tempo. A verdade que isso é simples: apenas seja verdadeiro c você. Não finja que não ama. Que não quer, porque naquele momento ou neste momento, é apenas isso que você deseja: o outro. A verdade é que você precisa sim, se redimir com o objeto da dor, mas, quando isso é feito em demasia, o efeito é inverso. Todos erramos. Todos já cometeram erros que gostariam que fossem revistos. Todos nos já fizemos escolher erradas, e tivemos que seguir com elas. A diferença, é que tem gente que segue por mais tempo que outras. Lembrem: etar com alguém, não quer dizer que se ama este alguém. Mas este alguém pode te amar. É justo? Dedique tempo pra você, e você terá certeza que o tempo terá retorno com o tempo. Se ame mais. Se elogie mais.

Hoje, com minha ferida sarada, posso dizer: doeu, as vezes ainda dói, mas já passou. Tudo é questão de entender, de sentir. De ir. Não parar. Tudo é questão de olhar pra frente. E as vezes, quando se olha pra frente, se encontra uma bela mulher por entre as gramas, que rir dos seus defeitos, te ama com tanto zelo, que você esquece que era um velho soldado cansado de guerra. Você esquece o peito aberto. Você precisa fechar logo, afinal, não é todo dia que alguém te tira pra dançar. Fica tranquilo rapaz, vai sarar. E se não sara, dói bem menos com o passar do tempo. Como eu sei? Eu também já sangrei.