Ela disse que tinha medo. Eu perguntei de quê. Parecia-me óbvio que ela não poderia ter medo, e se o tivesse, não poderia ser assumido assim. De forma simples. Tão as claras. A cada dia que se passava, ela me passava essa ideia que as coisas podem mudar. E mudam. Mudam tanto, que mudamos conjuntamente.
- tenho medo
- de quê?
- como assim de quê?
- sei lá. A gente tem medo de algo, né?
- é
- então.
- acho que eu tou com medo do futuro.
Pobre dela, nem sabia que é assim mesmo: o futuro é sempre incerto.
- mas é normal.
- você acha?
- claro! Muito normal.
- e é normal, achar normal sentir medo do futuro?
- Hã?
- deixa.
- eu tenho medo do futuro até quando estou nele.
- como? Você tem medo do presente!?
- tempos verbais. Tenho medo do futuro, até quando ele bate na porta querendo entrar. Até quando ele já está dentro. Quando ele faz festas dentro daqui. Do peito. Pra mim, passado e presente, é apenas um futuro ou teimoso que não quer ir dormir, ou que dorme demais. Sei la.
- nunca pensei assim.
- é. Penso sempre.
No fundo, tudo tratasse de um futuro. Ou que já está presente, ou que já passou. Que dorme demais ou que tem insônia. Tudo é futuro, só depende de como vemos.
- então tenho medo do que?
- de não sentir medo, é achar isso normal.