Estava definido: fim de jogo. Fim de jogo, ela disse, como se estivéssemos jogando algo. Conversas perdidas, talvez. Noites ganhadas, talvez. Jogávamos o que? Com quem? Com nós mesmos, ou com outros? Ela nem se dava conta, que esse tal jogo já estava encerrado desde o primeiro beijo. Ela sempre foi assim mesmo: difícil de entender coisas óbvias. Sempre foi preciso que eu gritasse de alguma forma, para ela entender o que se estava sendo dito. Nunca entendia sentidos metafóricos das minhas linhas. Meus olhares de quase socorro. Meu jeito de disfarçar. Mas o jogo já tinha sido enterrado e encerrado, há uns três anos pra trás. Desde o primeiro bater de dente, de um beijo molhado, em uma cama que futuramente seria nossa. Poker, porque sempre quis ser uma boa jogadora deste jogo. Além do mais, acreditava que eu blefava bem. Talvez sim.
Um jogo de dia e hora marcada. Quintas. Noite. Som e eu achando que era algo especial pra ela. Jogo, apenas. O apertar de suas pernas, quando tocava o dó, o o morder suave de sua lábios, quando trocava pelo ré. Jogo. No fundo, era apenas um toque de cantor. Como o passar a mão no cabelo, o acomodado confortavelmente atrás da orelha. Ela não sabe, mas, naqueles momentos, eu que queria ser o seu anexo capilar. Não era. Assídua espectadora daquilo que acreditava ser um show quase particular, não era. Tudo bem, sou dessas que colecionava coisas.
Poderia ser sinuca, como naquele dia em que jogamos no mesmo bar que ela cantava e me encantava. Ela estava com aquele suspensório e sapatos beges. O mesmo do primeiro encontro. Aquele que eu comecei a jogar o jogo mais letal de se sentir. Camisa negra, como quem tivera de luto. Ou me dando pistas da música que um dia iria ser nossa. Negros sapatos. Ela ainda amava outra, e bebeu- a. Gole por gole. Se não isso, talvez o jogo tivesse acabado ali mesmo. No primeiro beijo. Eu não o quis, por deixar aflorar essa coisa de romantismo. Por creditar que beijos são dados. Mas precisam ser retribuídos. Se não isso, teia feito o gol. Mas já era amor. Inevitavelmente já era. E foi naquela noite, e depois dia, que eu tive certeza disso. Uma noite onde eu, idiotamente, me joguei ao chão. Não em algum ritual. Ela merecia mais conforto, e eu não queria adentrar em seu espaço. Já era amor, eu sabia. Ao amanhecer, deixei- a dormindo. Como se tivessemos vivido uma longa e exaustiva noite de amor. De corpos suados. Transpirava sim, mas de nervoso. Minha musa, eu dizia. Seguir para a rua, com desculpa de cumprir responsabilidades, mas a única coisa que precisava ser feita, era encontrar uma floricultura. Quintanda que vendesse flores. Qualquer coisa assim. O jogo já havia começado e não me dava conta. Depois de muito acompanhar as curvas da cidade, encontrei o que seria a rosa mais linda. A mais linda que meus olhos poderiam avistar.
Sentia- me tão pequena ao seu lado. Uma timidez me alimentava. Não podia toca- la. Deslizei suavemente aquela rosa em suas amplas costas. Sentia como se fosse com minhas mãos. Descobria que ali, era minha vida extra. Sua pele, tão suave quanto as pétalas daquela rosa. O cheiro, egeo. Preparei- a um simples café da manhã. Sentia- me tão dela. Ela era um novo mundo, que eu tinha encontrado. Antes dos beijos, o jogo já havia sido iniciado. E o pior, que escrevo isto, do bônus secreto. Cristo soteropolitano, onde só eu lembro da fase final. Onde só eu lembro de datas idiotas. Talvez aqui seja uma especia de refúgio pra repor as energias. Lembrar dela. De seus jeitos mil. Cada sinal de seu corpo estrelar. Talvez o amor seja apenas um jogo que não sei jogar. Talvez tenha começado quando houve o primeiro olhar. O primeiro bater, sem bater de portas. Ou primeira preocupação. O início não importa mais, o que é preciso, é quando o jogo acabará. Acabará de vez. Pelo menos, acabar pra mim.