Também era noite. Bem mais fria que está. Soltaria. Eu, meus cacarecos e parte dos cacos que ainda sobrava de mim. O avião tocou definitivamente esses solos. Tinha certeza que parte de minha já estava morta. Suicídio com sobrevivente, eu dizia. Estou morta sim, eu gritava. Minhas malas giravam, olhava para elas afim de tentar me teletransportar. Não queria me deparar com uma recepção vazia. Um eco de solidão. Evitava a todo custo essa realidade.
Tomei coragem. Peguei mala por mala. Direcionei todas ao carrinho. Respirei fundo três vezes, e disse vamos lá. O cabelo milimetricamente penteado. A roupa alinhada. Ainda unha esperança de uma recepção. O mesmo olhar assustado da partida, com um ar a mais de saudade. Alegria. Recomeço. Estava errada.
Ali, percebi que o ressurgir era de mim, pra mim. Levantei-me. Peguei os pedaços que a mão aguentava. Ainda tinha as malas. Um par de cartas. Algumas camisas de presente. Doces típicos daquele lugar. Mas o que mais pesava era a aliança do recomeçar. Peguei tudo que sobrava de mim, e fui. Sem rumo. Com vontade de retomada. Um ano atrás, comecei a juntar pequeninos cacos. Colo-os até hoje. Talvez, cole por toda uma vida.
Um ano que ainda busco, o real sentido de sentir.