quinta-feira, 6 de março de 2014

Sempre deixei o amor me morder, mas era medo. Mesmo que efêmero. Mesmo que improvável. Mesmo que mínimo. Desarmava qualquer mudez do outro para atingi-lo. Não era de espera, de estratégia, de calma. Eu era de medo. Até ser amor.
O medo empurra o amor pra longe. É um freio na felicidade. O medo é como dois cadarços amarrados, te impedindo de continuar. A chance amordaçada de pegar a rua do meio e mudar pra sempre o rumo. O medo embaralha o foco. Remove a graça da vida. Com medo, tudo é apenas sobrevivência.
Mas aí, alguém aparece. E o mundo treme. E nada mais se encaixa. Sua coragem é demolida. É a única coisa que importa são aqueles olhos verdes na luz do sol e castanhos no escuro do quarto. O que importa é apenas os olhos de girassol. E o medo e o amor e a coragem, se misturam. Se entrelaçam e você foge para o que é mais perto. O medo.
E você sente medo de quando ele te puxa pra perto. E te acomoda no peito. Sente medo do que se molda, depois de uma promessa. E mais medo chega, porque o amor dele é mutante e machuca demais. Porque ele se borda no corpo de outras, do mesmo modo que dorme no seu. Você sente medo da maneira como ele te olha, à medida que a noite emudece. E medo de amá-lo, além do seu limite. Porque é possível. É provável.
Então, você percebe que se transformou em medo – ou o medo te tomou. E tudo fica até tranqüilo. Porque ele prorroga o sofrimento. É um Prozac com menos química, mais sonolência. O medo acarinha o teu cabelo e te faz dormir mansa. Pensamentos caóticos não vão te desequilibrar. O medo é superprotetor e prefere tua solidão ao teu choro.
Por mais que tentemos matar o medo, ele se aperta pra caber no coração. Vira uma demonstração que damos ao outro de nossas experiências. Um dia, você sente falta de não ter medo, porque olhou pra ontem e compreendeu que ele foi seu único companheiro. Até chegar o verdadeiro amor.