segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Caros leitores,

hoje é o primeiro dia de uma mais que longa jornada. Quem vos fala, de fato resolve se desprender de algumas amarras e querer a liberdade do devir. Essa poderia ser a primeira frase do texto, ele pensou. Caros leitores, dava um ar de contato direto com o leitor. Haverei uma interlocução entre um e outro. Haveria uma aproximação entre as duas partes. Mas ele apagou e reescreveu. Fez isso dezenas de vezes ate perceber que não havia nada para ser dito para o leitor. Não havia nada a ser dito para ninguém. Então ele guardou a caneta e o papel. Recolheu as folhas amassadas e as depositou no lixeiro. Desligou a luz. Deitou e começou a pensar em coisas aleatórias e específicas. Ele começava sempre pensando nela. Seja o pensamento aleatório ou o específico. Sempre era ela que vinha ao pensamento.


Levantou-se. Acendeu a luz. Pegou um envelope velho e tirou todas as quinquilharias que estavam dentro. Até chaveiro em forma de dente de Jacaré tinha dentro do envelope. Guardou as quinquilharias novamente e reteve apenas as cartas. Releu todas. Uma por uma. Página por página. Até a ultima. Fez isso algumas vezes. Recolheu as cartas e esbouçou um leve movimento de destruir com aquilo. Mais uma vez ele achava que era desnecessário guardar aquilo. A destinatária jamais receberá, isso era claro pra ele. Repetiu o movimento alguma vezes. Muitas vezes. Mais uma vez ele não conseguiu se desfazer daquilo que pesava uma tonelada. Em um sentindo metafórico, claro. Guardou tudo, desligou a luz e voltou a deitar. Olhava para o teto e lembrava de como eles faziam isso tão bem. Olhar o teto, sentar em poltronas e fazer nada. Faziam isso de forma magistral.

Virou o corpo para o lado esquerdo, levantou a perna e repousou-a sobre uma montanha de travesseiros. Era quase um simulador do corpo dela. Ele tentava reproduzir o jeito que dormiam. Ele fazia isso fazia um tempo, porque não conseguia dormir de forma diferente. Ele fazia isso há um tempo. Alguns muitos e poucos meses. No frio ou calor, ele reproduzia isso afim de dormir. E conseguia. Ele inclinava o corpo, levantava a perna, abraçava um travesseiro, fechava os olhos e todo o cheiro dela vinha automaticamente. Poder da mente, ele dizia. A mente de fato tem muito poder, mas as vezes ele sentia o cheiro sem querer sentir. As vezes ele achava que a mente trabalhava de forma separada de seu corpo. Era uma reprodução perfeita de seu cheiro. Essa mistura de doce, madeira, flores e amor. Porque amor tem cheiro, gosto e cor, ele dizia. Cheiro, gosto e cor. Desconheço a realidade desta afirmação, mas, nunca discordo dele. Ele deve estar certo. Vai vê o amor tem cor e sabor mesmo. A gente fica até mais feliz amando. A gente fica feliz ao ver um arco-íris também. Ou seja, ficamos felizes com cores. O amor deve ser uma paleta inteira e rara de todas as cores do mundo. Deve ser a junção de todos os aromas e sabores do mundo. Deve ser todos e uma seleta seleção disso tudo. O amor deve ser seleção e mistura. Sei lá, fico filosofal quando descrevo ele e ela.

O fim é que ele dormiu. Ele dormiu de forma que sonhou mais uma vez com ela. Mais uma vez sonhou com ela e sentiu o seu cheiro, toque, sabor e cor. Ele fazia a mesma coisa todas as noite e dessa vez ele disse que seria a despedida. Até o ritual ele iria abandonar. Estava decidido de partir mesmo. Pegar um trem sem rumo, ele dizia. Porém dizia que em toda a estação estava o rastro dela. Ai ele pegava o próximo trem pra partir e no fundo ele seguia o rastro dela, ou ela que deixava o rastro de propósito. Só sei que ele estava decidido de seguir ou de trem ou de barco ou a pé. Ele tava disposto a romper com todos esses laços feitos e delicados. Com todos esses amores desenhados e esculpidos. Com essas cores e sabores. Queria até amar outra pessoa. Queria seguir com outra pessoa que nem sabia quem era. Não tinha pego o mesmo trem, ou cruzado na estação. Ou até cruzou, mas o cheiro dela era tão forte que sempre embebedou ele. Agora, ele tenta usar um pouco mais do próprio perfume pra poder seguir sem sentir o rastro dela. Ele acreditava isso, por isso que começou escrevendo: caros leitores.