terça-feira, 5 de novembro de 2013

E de linhas certas e tortas, saem confissões. Confissões dessas que a gente faz pra um terapeuta, ou pro ralo do banheiro. Pro ralo do banheiro quando estamos friccionando o couro cabeludo querendo desmembrar a sujeira. Quando nossas lágrimas alvas se misturam com a cachoeira que sai de forma desordenada de nosso chuveiro. Saem confissões de bocas marotas e secas. De almas boas e ruins. De pessoas. Em linhas rotas e tortas, saem confissões de mim e de ti e de outro qualquer. Sai confissões de nós. E por ser só de nós, os outros não conseguem entender.

Em linhas tortas e palavras longas, é dito o que não era pra ser ouvido. O que não queria ser ouvido. Em palavras que são mal colocadas, saem a verdade. Saem a verdade da vida e da morte e do outro e de mim e de um início e fim de nós e sai também a ruptura e o pedido de desculpa e o adeus com sabor de até logo, mas que no fundo é o fim. Mas fins são recomeços e você que disse que era preciso sempre recomeçar. Recomeçamos e recomeçaremos quantas vezes forem preciso, eu disse e você concordou. De linhas tortas, saem letras, traços e vida. Saem o outro. Saem amor, talvez.

O que é de nossa ciência, é que em linhas tortas, existe mais eu no sentido mais real do existir, do que a própria métrica, que a própria rima, que a própria coesão. Das linhas um pouco certas e muito torta, saem a verdade da existência humana, pra mim. Sai vidas e mortes. Recomeços. Vidas no geral. Dessas linhas saem todas as verdades que ficavam entaladas. São postas as lembranças que jamais serão esquecidas. Saem a esperança de uma vida gostosa e cheia de rotinas. De rotinas normais e anormais. Dessas rotinas corriqueiras. Nas linhas saem apenas a vontade de seguir em forma de versos. Em forma de poesia.