quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O que seria a metáfora da vida?

O que seria a metáfora da vida? Ela indagava enquanto massageava e acariciava os calos dos meus pés.  Calos metafóricos de uma intensa caminhada. Não sabia a resposta. Na verdade não entendi nem sequer a pergunta. Silenciei, de forma que só era possível ouvir a respiração de ambas e algumas tapas nos pontos específicos dos pés. Ela, não satisfeita, perguntou novamente: O que seria a metáfora da vida? Afim de responder a sua pergunta, disse que era viver. A metáfora da vida é viver. Pronto, respondido, podemos seguir com a massagem? Seguimos. 

Perguntava-me o porque da pergunta. O motivo de uma pergunta sem lógica e com todas. Ai eu disse: a metáfora da vida é a própria vida? Ela não entendeu. Eu repeti a pergunta. Calamos. Refletimos. Chegamos a conclusão que a metáfora da vida, é a redundância da própria vida. Do próprio viver. É o literal viver. É o antagonismo. É a discrepância clara de vida, morte, viver, viveres, seres, ser. A metáfora do ser é o próprio ser, talvez. 

Falamos um pouco sobre alguns filósofos que gostávamos. sobre a nossa própria existência. Falamos sobre o tempo. Os outros. O outro. O vento que assobiava incessantemente. A chuva que chegava e não ia. Os dias perto e longe. Sobre metáforas e metonímias. Sobre a literal literatura que nos acompanhava. Sobre pegadas na areia. No cimento. submersão na água. No outro. Sobre momentos e nãos. Estranho né?! Eu dizia como que pra dizer de forma subliminar, que ela era quase eu, só que tão parecida, e tão diferente. Lembrei dessa coisa de que diferentes são mais positivos, do que os iguais. 

E rente a gente, ali entre paredes, metades e inteiros. Entre travesseiros. Entre metáforas e suas explicações. Entre mãos. Entre tudo isso e bem rente, estava a nossa eterna vontade de querer ser assim.sem desejo sexual. Sem embaraços de línguas. Sem línguas. Sem meios e meias palavras. Existia na gente o desejo inerente de nós mesmos. O desejo de sermos assim, amigas. O desejo do contado físico sem conotação sexual. Sem o cheiro do gosto do gozo. Sem o dorso sob os seios. Sem anseios. Bem rente de nós existia isso. Um carinho no toque. Um passar de dedos por entre o braço e rosto. Um velar o sono ainda que proibido. Um acordar delicadamente. Essa vontade de querer exatamente isso, essa vontade de ser apenas assim. Em uma rede. Em uma cama. Em um sofá. Na cozinha. Sermos assim. Discutir Foucault e a definição de felicidade pra Nietzsche, entre um café e outro. Entre uma salada e outra. Entre um tapa e outro. Entre nó e nós. 

Bem rente só existia isso mesmo. A cumplicidade disfarçada de apatia. A cumplicidade disfarçada de vontade. De desejo. Também existia o cuidado. Existia o amor. Existia essas coisas grandes e pequenas. Ocultas e não. Mágicas e sins. Almas que se entrelaçavam. Que se entrelaçaram e que ia muito além de apenas um desejo carnal. Era coisa dos deuses. Uma conexão com o divino. Era de outros mundos. De outras vidas. Bem rente, ficava eu, ela e a chama que nunca apagava. Ficava ela, eu e o medo do de novo machucar outra vez. Ficava eu, ela e a vontade de ter sido diferente. Rente a gente, fora tudo já dito, ficava sempre algo de faltas e cheios. Ficava sempre algo que preenchia e que esvaziava. Ficava sempre interrogações. Finalmente, o que seria a metáfora da vida?

Paula do Vale