Não te troquei. Você que me substituiu pelo vazio de uma paixão fria. Não coloquei outro em teu lugar, apenas ofereci a cadeira pra um louco qualquer descansar as pernas de uma longa caminhada. E eu, descansei o meu coração deste curto longo sofrer. Uma troca de favores, mas não de amores. Desde que você disse não, eu continuei a caminhar, as vezes tropeçando, as vezes correndo, as vezes apenas observando as árvores pelo caminho. Desde que eu percebi que era não, eu repeti pra mim um sonoro sim. Sim, devo ser feliz. Dei o primeiro passo, só falta o segundo: ser feliz. Beijei algumas bocas sem graça que no mesmo instante foram comparadas com o teu delicado beijar, uma comparação cruel para quem tentava roubar o meu coração e querer, tudo desnecessariamente planejado pelos terceiros elementos de nossa morta relação. Como eles podem desejar um beijo todo deles, se até a minha vida é tua? Até o pássaro do vizinho, que canta sem parar quando eu penso em você, sabe que meu querer e amar é só teu. Ele nos reverência com sua doce canção.
É como se eu tivesse uma plaquinha, destas de cuidado piso molhado, em meu olhar. A diferença que o aviso deve ser algo como: cuidado, ela possui um amor quase perdido. Amores quase perdidos podem ser cruéis, podem matar, não pessoas, mas desejos. Desejos por outros, desejos de seguir, desejos. Todos são devidamente exterminados com esse amor quase perdido. Talvez pela incerteza ou apenas pela dor da transformação, da transformação do amor e do olhar. O olhar para o outro muda, como se o outro de toda forma fosse invisível. A culpa não é dele, talvez em outro momento, eu até o achasse inteligente e com um senso de humor raro, mas neste momento, apenas o vejo com repulsa, como um inimigo. Um inimigo que nem sei o por quê.
Então eu sigo como se tivesse em uma guerra, onde os outros olhares são de inimigos e eu desejo apenas um abrigo seguro para repousar. Repousar da força feita para desviar das bombas mal lançadas, dos tiros quase atingidos e principalmente, do campo minado exaustante que tive que ultrapassar para poder chegar até aqui. Campo minado de frases, gestos e desejos que não podem ser expostos, e uma vez feito, é a ruína do resto de mim, de ti e do que já foi uma relação. Chegar, mesmo que com alguns arranhões, alguns estilhaços, calos, sede e fome. Chegar é o meu maior objetivo. Chegar sã e viva. Sede e fome. Fome e sede. Fome e sede de amar, mais e mais, nessa guerra louca que é o desejo e perdão.
Paula do Vale