quarta-feira, 3 de julho de 2013

Conexão

Comprei o chá que você tanto gosta. Tá na estante, terceira prateleira. Na geladeira tem o leite, esquenta e faz dois pra gente. Como foi o seu dia? O meu foi o de sempre. Sempre começávamos assim, com esse diálogo fechado. As mesmas perguntas, os mesmos pedidos. A rotina, gostávamos de rotina. Era como se tivéssemos um mundo nosso, próprio de se morar, de se viver. Gostávamos disso, dessa ideia de saber o que o outro pensava e queria, e ao mesmo tempo ter a ideia que eramos estranhos. As vezes retirava os seus sapatos, fazia piadas de seus pés, ou simulava um odor inexistente. Geralmente ele ria e enrubescia, de uma forma que nenhum outro homem irá fazer. Geralmente conversávamos sobre assuntos aleatórios, sobre as notícias do dia, ou víamos programas que nem sabíamos o que era, apenas ficávamos ali, curtindo o momento de ser do outro. 

Preparava o seu jantar, ou ele o meu, comíamos e falávamos mais sobre coisas aleatórias. Gostávamos de falar sobre várias coisas sem muita conexão, porque no fundo, a conexão éramos nós. Deitávamos como quem matou vários leões por dia, tentávamos ver algo, também aleatório. A graça não era o assistir algo importante, o importante era que nos assistíamos. Lembro dos seus jeitos, acredito que ele também lembra do meu. Eu, amava vê-lo cochilar e disfarçar com um coçar dos olhos, era como se ele me falasse: - estou aqui e esse momento também é importante para mim. Eu ria internamente, fingia não ter visto. Era a minha forma de dizer: - eu sei que foi um dia difícil, mas, isso relaxa, pode dormir. As vezes tinha vontade de nina-lo, mas, algo sempre dizia que poderia ser letal. Quando o outro sabe que existe amor explícito, as coisas podem arruinar. Nem sempre, mas, não valeria o risco. Deixava o amor  não explícito, deixava subentendido. 

Ele dormia, eu sorria, e continuava vendo coisas aleatórias, como que para continuar a conexão, era o meu jeito de dizer: - eu te conto o fim. E o fim, era que eu dormia, ele não sorria, mas eu sabia que poderia sorrir em sonhos. As vezes ele sorria dormindo. Talvez fosse o seu jeito de sorrir pra mim, com a tal conexão. Ele acordava, me beijava, e eu sorria internamente. Geralmente eu achava péssimo ser acordada no melhor do sono. Mas, depois eu entendi, que não interrompia o meu sonho. Afinal, é o mais importante. O sonho, se vive acordado, e ele me acordava pra sonhar. Apenas sorria. 

Falávamos muitas vezes durante o dia, acho que pra manter essa tal conexão. Eu geralmente ligava mais. Ligava com desculpas bobas, que no fundo ele sabia que só era pra ouvir a sua voz. Ligava pelo tempo, pelo almoço, pelo jantar, pelas aulas, pela viagem que aconteceria semanas depois e que tudo já estava pronto, ligava pra dizer que amava, que sentia falta, mas, nunca, nunca pra dizer que um dia eu poderia o deixar por medo, mas ainda assim o amaria. Achava que estava subentendido. Eu tinha medos. Ele também. Tínhamos medo, mas também tínhamos coragem. Ele chorava, eu apoiava. Eu não chorava, tinha que ser forte. Ele achava que tinha mais medo do que eu e eu não poderia deixar ele acreditar que eu também tinha muitos. Tinha que ser forte. Eu, tinha que ser forte. Ai, um dia, depois de tanto ser forte, resolvi ter medo mais uma vez e dessa vez eu tive muito medo. Ai, por não ter dito, nas muitas ligações, jantares e conversas, que tinha medo, que tinha muito medo, e que ainda tendo medo, ainda assim tinha muito amor, é que ele não entendeu o meu medo. Talvez eu também não entenderia. Ele na verdade, nem sabia que eu tinha medo. Mas eu tinha, tinha muito. Só mostrava ter coragem em excesso, pra ele também ter. Um com medo pode, dois com medo é catastrófico. E foi assim, que por querer ter coragem, eu me vi mergulhando em um mar de medo exposto. Ainda com medo, como eu disse várias vezes pra mim, ainda tem amor. Ainda tem muito amor. E hoje, ainda que de longe, eu sorrio por imaginar ele coçando o olho pra manter a tal conexão. Fazendo o leite com chá e falando coisas aleatórias pra manter a conexão. Hoje eu sorrio porque eu sei que mesmo existindo o medo, existe amor e a tal conexão. Mesmo que com um triste fim, existe um terno amor.


Paula do Vale