Era madrugada, de um dia qualquer para outro que tanto faz, que a moça de fato não conseguia mais dormir. Os pensamentos voavam como esses pardais, que comem de tudo. Comem pão, pedras, capim, dores e amores. Os pensamentos tinham a mesma função, comer o que estava ali. Comia tudo de bom e de ruim. Comia tudo o que estava por ali, sobrevoando o interior dela. A moça, que habitava uma simples cidadela dela mesma, as vezes tinha a certeza que também iria se transformar em um pássaro. Não saberia dizer se um pardal, garça ou flamingo, só esperava que em um domingo, iria voar com os seus pensamentos, e voltar a pisar na terra por um momento, e descobrir que seu lugar de fato é o ar. E porque todo o amor é puro e válido, que ela se dava para ele. Todos os dias, um pouco dela se ia. Ia como quem foge para acalentar outro peito, outro rosto, outro gosto, outro beijo. Apenas ia. Ia com a espera de um dia voltar, mas esperar as vezes é castigo.
Paula do Vale