As pessoas que menos conseguem demonstrar afeto, são as que mais precisam de afeto. E são as que mais são verdadeiras quando demonstram. São mais intensas. São mais verdadeiras e conseguem expor de uma só vez, sentimentos de uma vida toda com pequenas palavras e gestos. Também sou uma dessas pessoas, dizia ele. ele falava sempre isso: não sei demonstrar direito, mas, eu tenho afeição por você.
Ele olhava o céu e a chuva e sentia que a tempestade poeria voltar novamente, mas que o sol chega em algum momento. O céu abre em algum momento do dia, mesmo que não queiramos. E ainda que o céu esteja bastante cinza, a sua abertura e a chegada do sol é inevitável. É preciso querer enxergar o sol. Ele falava isso. Como que pra dizer: ainda que eu não consiga demonstrar, está aqui e é inevitável sentir. Ela calava e olhava pra ele. Como se ele fosse um verdadeiro enigma. Ela já falou diversas vezes que ele tinha algo indecifrável. Que ele tinha um "Q" que não sabia definir.
Ele até entendia essas palavras assim, mas não concordava. Talvez ele já tivesse ouvido diversas vezes a mesma coisa. De várias pessoas. Então ele olhava pro céu, esperando a possível tempestade e a reabertura do céu em forma de sol. Para que ele imaginasse ela girando por ai. Girando sem parar.