se você soubesse o quanto sofri ao ter que partir, talvez você entendesse o que passou. Eu te amo como nesses romances americanos, esse que a mocinha fica com o mocinho no fim. Só que não sou mocinha, sou a parte má do enredo barato. Se você soubesse quantas e quantas noites eu chorei calada, sofrida pra não te acordar, talvez você entendesse parte disso tudo. Talvez você entenda o que era e foi.
Tranquilizo-me aos poucos e entendo que de fato um dia tudo chegará ao fim para mim, e cada dia que passa estou mais perto do verdadeiro fim. Você recomeçou, deixou ser reflorestada e eu faço diariamente também. Deixo-me ser reflorestada diariamente e paulatinamente encontro saídas e escapes pra falta que você faz. Entendo que um dia chegará o dia em que você não fará falta ou que uma dessas distrações serão o suficiente pra nem lembrar de você. Acredito que deva funcionar assim e que funcionou assim pra você. No fundo, sempre vemos nos outros pequenas possibilidades de distrações e distraídos seguimos.
Ela falava isso com tanta verdade olhando pro espelho, que ele precisou perguntar se de fato ela queria seguir com isso. Com esse plano de achar distrações e seguir sem ele. No fundo ele também via nela uma pequena distração e por isso sabia exatamente do que ela falava. Ele calava com frequência e botava a culpa nela por não conseguir falar, mas, ela não tinha culpa dos seus emudecimentos repentinos. Ela tinha culpa dos emudecimentos dela, porém, só isso. E eles brigaram mais uma vez, olhando pelo espelho e pelo canto de olho, porque ela não gostava de muito contato visual. Eles brigava como pra resolver de uma vez assuntos pendentes e penitentes de um passado quase que sombrio, ainda que com muito amor, porque eles se amavam de um jeito ou de outro. Ele falava pra ela que ela nunca o fez feliz de verdade. Como se fosse possível fazer feliz de mentira.
Ela falava pra ele que não era possível fazer alguém feliz de mentira, que por mais que ele quisesse, ela o fez feliz. Mesmo que ele não aceitasse ela o fez mais que feliz, ela o fazia flutuar em alguns momentos. Ele sabia disso, mas preferia fingir que não concordava e mudava de assunto, ou tentava. Ela sabia de todos os seus jeitos, afinal, eles já tiveram uma relação longa e conturbada, eles se conheciam bem. Todos os defeitos, todos os jeitos, contudo não conheciam bem os amores que possuíam, fingiam não amar mesmo amando. Ele agradecia por ela estar ali e ela calava. Ela falava que sabia que tinha cometido erros e quem calava era ele. E nesse jogo de palavras e sentidos e prazeres, eles se renderam ao que só era deles e que nunca deixou de ser. Eles se renderam ao mais puro dos amores e mesmo que com um pouco de dores de um passado cruel, eles entenderam que um tempo é preciso pra reestruturar qualquer relação. Ela ficava feliz por falar tudo e ele ficava calado por não acreditar no que ouvia. Ela calava ele e ele calava ela. E pretendem seguir assim, falando e calando até não ter mais fim. No fundo, o inesperado faz a vida ter mais sentido. Ele calando ela e ela calando ele, assim deveria ter sido sempre, mas, o tempo foi preciso pra eles entenderem isso e agora querem sempre calar um ao outro.