segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Você que era a vogal tônica da frase bem mau escrita, fez toda a oração ficar subordinada. Sem nem reparar você fez da oração, uma oração subordinada por minha insubordinação. E de tanto não se fez o sim e de tanto sim se fez o não, porque sempre falam que o que é demais faz mal. O que tem muito, vira pouco. Eu sei.

De tanto não se fez a negativa prorrogativa de umas ações bobas e desmedidas. De tanto sim se fez a oração mal escrita desses enredos meia boca. E a gente leva assim, com pouco não e muito sim, muito sim e pouco não. Com o equilíbrio desequilibrado. Com o aval não assinado. Com a vida desmedida se faz a medida certa de uma felicidade que não cabe em caixas rotuladas. E com rótulos eu escrevo poesia e prego por ai. Com os pregos eu furo pneus para que as pessoas caminhem mais. Com as caminhadas eu respiro ar fresco olhando o céu azul. Com o céu azul eu quero o voo mais alto entre as montanhas do sul. E com as montanhas eu quero a liberdade do ir e devir de um amor quase morto e quase vivo. Quase mestre, quase aprendiz. Quase vida e quase morte. Quase eu, quase o outro. Quase um jardim suspenso, quase as muralhas. Quase divino, quase pagão. Quase meu, quase de outrem. Quase um desvio na contramão.

Do desvio na contramão eu quero o choque certeiro com um caminhão desgovernado. Quero a alma suspensa pra o reino dos céus. Quero a livre escolha da vida eterna, amém. Da vida eterna ao pó. Do pão ao chão. Do chão, os pés. Dos pés a mão. Da mão o afago. Do afago o beijo. Do beijo o queijo. Do queijo goiabada. Da goiabada o doce. Do doce o sonho. Do sonho a esperança que de uma criança chegue a paz que tanto se almeja.

A meta. A metade. A metafísica. O emaranhado dos louros fios de cabelos. Os fios soltos sobre a cama. A roupa suja no cesto. A maquina trabalhando com alvejante para retirar as provas de uma longa noite de amor. A vida ultrapassando as expectativas de meros mortais. A imortalidade dos sentimentos. A moralidade dos pensamentos. A negação de uma vida que foi devidamente vivida. A negação do possível erro. O julgamento. Os julgamentos. A precipitação de gostas serenas de água límpida - nem tanto- de um céu azul anil. A presença falsa de uma ausência muda. A mudez das palavras entaladas em cordas vocais mudas. A surdez dos sonidos sem ritmo de uma selva de pedras mal postas. Curvas crescentes de uma cidade quase viva e muito morta. A província disfarçada de megalópole. Metas. Metas e matos. Mato. Mato e morro. Vivo e choro. Fico e vou. Vou. Voou. De palavras soltas: o sossego. De palavras ditas: o perdão. De sonhos tidos: pesadelos. De vontades mortas: a ressurreição.

Da despedida: perdida. Da luz acesa: apaga. Da luz no túnel: a mão. Da lanterna: ela. Da busca: achar. Da vida: ficar. Do amor: viver. Da esperança: morrer. Da juventude: perdida. Da liberdade: vivida. Da fé: amor. De hoje: 14. De 14: o dia. Do dia: lembrança. De lembrança: melhor. Do melhor: você. De você: vem eu. De mim: perdão. Do perdão: olhar. Do olhar: a mão. Da mão: a fé. Da fé: de novo o amor. Que o dia de hoje seja apenas um eterno soltar frouxo de palavras sem nexo, sem rima e métrica. E que da métrica fique o nosso pó. Do nosso pó fique um pouco de saudade, um pouco de vontade, um pouco de amor, um pouco de você, um pouco de mim, um pouco de mulher, um pouco de jasmim, tulipa, girassol, que fique um raio de sol. Só o pó, o nó, o nu e nós. Que de hoje, fique um pouco de nós em cada esquina. Em cada rua. Em cada nota musical. Em cada copo de cerveja. Em cada gole de suco de laranja. Em cada grã de areia de uma praia deserta. Que fique um pedaço de nós em cada espaço do mundo, porque do mudo mundo nós fomos uma completa muda décima parte da felicidade de um limpo céu.