quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Estrada

Eu te respeito. Sempre te respeitei. Acredite em mim, existe respeito, carinho, amor e todos esses sentimentos. Ela falava para ele de forma que ele não tivesse dúvida que de fato ela o respeitava. Ela só tinha falado de um possível reencontro em um futuro distante, porque de fato não queria perder o rastro dele nesta longa estrada de duas mãos. Ela não sonhava mais em ter filhos com ele ou cria-los em uma casa grande, com uma grande varanda. Ela não esperava um dia encontra-lo voltando do trabalho. Encontra-lo sentado na porta olhando as crianças brincando ao ar livre e  tocando o seu violão. Ela não pensava em futuro, não pensava em estar com ele, só queria um dia encontra-lo e tomar algo. Só queria não ter que fingir que não o conhecia ou não puder dividir momentos especiais. Ela só queria que um dia ele jogasse os seus filhos pra cima e o pegasse ainda no ar. Assim eles iriam confiar nele, como ela também confiava, afinal, ele a pegou depois de ser jogada pra cima. Ele evitou uma trágica queda. O pior que ele nem sabe disso.

Ela o devia muito, o devia mais que um dia ele pudesse entender. Ele não tem ideia o trabalho de arquiteto que fez em seu interior. Um trabalho minucioso de artesão. De um verdadeiro artesão que dedica horas de seu dia em apenas uma peça. Ela precisava agradecer por esse trabalho feito sem que fosse pedido. Ela queria que ele entendesse que as vezes algumas coisas acontecem mesmo, que as vezes a gente está mais propenso ao desequilíbrio para depois vir o equilíbrio total. Ela queria que ele entendesse que de uma simples valsa veio a vida dentro de si. De um pisão no pé e um balançar ritmado, veio o amor de uma forma minúscula. Que do entrelaçamento dos corpos veio a forma de amor mais pura que possa existir. Que ela nem se preocupava com a outra parte, que nem queria saber o que achava ou deixava de achar, que simplesmente ela sentia e queria continuar sentindo o amor pulsando dentro dela. Esse amor em forma de gente e essas coisas todas. Ela precisava dizer isso. Precisava dizer que ela não tinha mais esperança de um retorno físico e carnal há muito tempo, mas, que queria um dia quem sabe, ter um retorno emocional fraternal. Apenas.

Ela entendia ele e eu acredito que ele entendia ela e o que ela fez. Acredito de verdade que ele a entenda. Ela sabia que isso levava tempo, talvez muito tempo, talvez uma vida toda. Ele não a odiava, mas, ainda tinha magoa dentro de si. E isso também é aceitável diante de toda uma situação sem tamanho. Somos racionais e passionais. Somos os dois, então, não é difícil de entender que ele presava pelo amor que ele voltou a sentir por outra pessoa. Ela entendia isto também, é preciso proteger quem se ama. Ela aprendeu no decorrer da vida e ele ensinou isso também, mas também não tem ideia que fez isso. Ela entendia que ele precisava disso, da distância, do afastamento. O que ela não entendia é em que momento começou a fazer mal para ele, porque ela tinha essa certeza e por isso tentava respeita-lo ainda mais em suas decisões. Ela tinha certeza que era como esses produtos que causam alergias para ele. Ela se sentia uma caixa com quinquilharias velhas e cheias de poeiras, que você simplesmente guarda-as afim de não jogar fora, mas também não mexe para não levantar a poeira e causar irritação nas vias respiratórias. Era isso que ela era, uma grande caixa velha e com muita poeira.

É preciso de tempo pra que tudo volte ao lugar, ou que nunca mais seja igual. Porque no fundo todos sabiam que jamais seria igual, porque a confiança foi quebrada dos dois lados. Ele também não tem ideia o quanto machucou ela dezenas de vezes, porque ela sempre esteve calada. Como uma simples dedicatória de uma música pode destruir o sentimento dentro de si no sentido mais amplo. Ele não tinha ideia de que ler aquilo de fato foi o começo de sua ruína emocional, porque, ele que ensinou ela a ter apreço por coisas idiotas de casais idiotas. E ela se orgulhava disso, de ter uma música que definisse o que um era pro outro, mesmo depois do fim. Porque ele nem tem ideia que ela ouvia essa sempre que lembrava dele. Sempre que estava sem sono. Sempre que se sentia perdida. Ela aprendeu a tocar essa música só pra mostrar pra ele da forma dela que se se importava sim com isso tudo. Que se importava com a música, ele e toda a sua fodida relação louca. Contudo, ela não tem não tem noção o buraco que de fato deve ter feito no peito dele. Então não existe nada mais saudável do que continuar seguindo a velha estrada e virar para uma nova estrada, porque existe diversas estradas pelo mundo e as vezes elas se cruzam sem a gente saber. A única certeza que existe em toda essa história é que ela ama ele e que ele amou ela, mas, que não a ama mais. A única certeza que existe é que quando acaba o amor, não existe possibilidade de seguir nada juntos, nem  de forma fraternal.