domingo, 13 de outubro de 2013

É que hoje é domingo. Dia 13 e domingo. Você não entenderia. Eu acredito que você jamais seria capaz de entender. Falei isso, estendi o copo para por mais suco, ele preencheu o espaço vazio e me perguntou se tinha algo que pudesse fazer. Eu respondi em prontidão que não teria nada a se fazer, apenas riscar uma data do calendário ou transformá-la como um dia comum como outro qualquer. Domingos sempre são os piores dias, dia 13 sempre me faz lembrar que o seguinte é 14 e isso faz com que eu perca de uma vez 2 dias em um só mês. Ele disse que entendia o que se passava, que queria ajudar, só que não sabia como. Eu disse que não teria como ajudar, mas que ele era a própria ajuda. Ele me abraçou e ficamos ali, vendo TV e tomando suco de laranja com uma pedra de gelo. Era madrugada. Era tarde da noite, mas o ontem já tinha virado amanhã.

Ele queria animar minha segunda, meu dia 14. Ele queria animar meu dia de relembrar passados e aflorar lembranças. Ele queria me fazer esquecer os dias dos lamentos. Esquecer o dia de saber que daqui a dois meses seriam três longos anos. Ele no fundo estava sendo a muleta que eu já fui pra outrem. E vai ver ele se apaixonou por isso também, por minha nítida fragilidade. Ele sou eu e eu ela. Ele. Ele apaixonado pelo meu estado frágil atual e eu me apoiando nele mas sem paixão, mas me forçando pra isso. Porque as vezes é preciso que alguém aqueça seus pés em dias frios, mesmo que não exista frio na cidade morta.

Ao amanhecer ele me deu um beijo na testa, como ela fazia, disse até breve e partiu. Ele foi embora e deixou um rastro de seu cheiro e dedicação. Ele deixou um rastro de amor claro entre todos os cômodos da casa. Liguei a TV, abracei o travesseiro e me ninei até dormir novamente. Ele queria que eu ficasse bem e eu tinha que ficar. Ele estava disposto a nunca ir sem mim, ele disse isso. Mas já falaram outras vezes e seguiram. Prefiro não acreditar, apenas fingir que sim. Ele disse que viria a noite, que iria ficar comigo a noite, mas que não estava forçando nada, só queria sentir o cheiro do meu cabelo, que pra ele é como a primavera em fios. Eu riu quando ele diz isso: primavera em fios. Parece-me que todos gostam das mesmas coisas em mim. Sorrisos, olhar, cabelo, cheiro, sotaque, mistério, jeito estranho de amar. Todos gostam das mesmas coisas, do mesmo jeito e quase na mesma ordem. Devo ser o maior clichê de mim mesma. Eu disse: vem. E ele ficou feliz. Vamos passar mais uma noite regada a suco de laranja com gelo, entrelaçando os pés e amando a presença do outro.

Pelo menos assim eu tento esquecer aquele dia no Porto, na praia. Aquele dia do sim. Do balançar suave. Do entrelaço das pernas sob as águas do mar. Do amor profundo ainda que do jeito de cada um. Do erro. Dos erros. Das palavras caladas. Das dúzias de palavras ditas. Dos sentimentos que ainda sinto. Do amor que é preciso resinificar. Do amor que precisa de outra direção. Da presença que não se tem. Dos sonhos que se perderam. Do futuro desviado. Do presente bandido. Do passado digno de um filme de enredo barato, mas premiado. Pelo menos ele me faz esquecer de uma parte boa. Pelo menos ele me faz esquecer por minutos que dia é. Pelo menos me restou essas lembranças que ninguém pode roubar, esquecer ou deixar pra trás. Só eu posso fazer isso, mas, esquecer disso é esquecer uma parte de mim.