- Ela sabe que você me lê?
- Oi?
- Simples. Ela sabe que você me lê?
- Que eu te leio?
- Sim. Que você me lê todos os dias. As vezes mais de uma vez por dia. Ela sabe?
- Mas eu não te leio!
- Não?
- Não!
- Você mente?
- As vezes.
-Você mente agora?
-Talvez.
- Por que você me lê?
-Porque as vezes eu quero saber de você. Você não fala nada de você, nem do que você sente. Ou passou ou sentiu. As vezes eu preciso saber como você está.
- Por que você não pergunta?
- Vergonha.
-De mim?
- De perguntar depois de demonstrar tanto desinteresse por você.
- Vergonha de você?
- De mim e de minha cabeça dura.
- Você gosta do que lê?
- As vezes.
- Por quê?
- Você sente muito amor, não é?
- Talvez..
- Por ela não é?
- Talvez..
- Por isso que te leio, você é sempre talvez. Nunca certeza.
- Já fui certeza e o que tenho hoje?
- Dúvidas?
- Dores.
- Pelas certezas?
- Por não saber mostrar as certezas que eu tinha em mim.
- Você sente dor pelo que não conseguiu mostrar?
- Sinto dor pelo que não conseguir mostrar, pelo que mostrei tardiamente e pelo não consigo mais esconder.
- Acho que você deveria escrever um livro.
- Não.
- Falo sério.
-Não
- Por quê?
- Não sou escritora. Sou qualquer coisa menos isso.
- Mas você escreve. Você escreve bem.
- Escrevo linhas tortas. Apenas isso: linhas tortas.
- Então pelo menos continua escrevendo linhas tortas, gosto delas.
- Agora não posso mais escrever.
- Por quê?
- Sei que alguém conhecido lê. Não posso ser lida por conhecidos.
- Por isso não vai escrever mais?
- Talvez!
- Mas quem garante que você não estava sendo lida por conhecidos muito antes de mim?
- Não garanto, apenas imagino que sim. Antes eu sabia que era lida por uma pessoa. Eu sabia disso, mas faz muito tempo. Agora eu não sou lida por ninguém conhecido fora você. Você que nem é tão conhecido assim.
- Eu sei de quem você fala. E se sua imaginação estiver errada?
- Faz parte.
- Posso fazer uma pergunta?
- Pode.
- Você ficaria comigo?
- Por que isso agora?
- Você ficaria comigo? Sim ou não? Do jeito que for, como for e como você estiver. Você fica comigo?
- Não.
- Por quê?
- Porque estou de uma forma duplicada.
- Eu sei.
- Sabe?
- Te leio. Fica?
- Preciso ir, preciso dormir.
- Escreve sobre mim?
- Talvez.
- Então eu sei que você vai escrever. Seu talvez sempre é sim. Nunca é não.
- Boa noite.
- Dorme bem, tá? Promete que se cuida?
- Sim.
- Tchau.
- Tchau.
- Espero continuar te lendo.