domingo, 15 de setembro de 2013

Chuva

Aos que leem o blog, peço desculpas, mas, esse será o último post por um tempo. Continuarei escrevendo, porém, com a velha caneta e papel. Eu preciso por minha intensidade da escrita, porém, na folha do papel. É preciso que eu mostre para terceiros e sendo assim, me despeço por um tempo (in)determinado. 

Chuva 

Era um domingo chuvoso, e ele resolveu abrir o verbo. Falou tudo. Tudo mesmo, não, quase tudo. Ele falou da aflição de quem passa por aquilo, dos conflitos que aquilo causava e sempre causou. Só não falou das madrugadas no parapeito do seu antigo prédio, quando ainda tinha espinha na cara e falta de pelos no peito. O primeiro sinal de um possível distúrbio. Também não falou das seguidas entradas no mar, lá pros anos de 2007, afim de que ele o levasse embora de vez. Mas falou quase tudo, porém quase tudo, ainda não é tudo. 

É difícil viver assim, ele disse. Com um olhar desesperado e com uma cachoeira de lágrimas nos olhos. É difícil. Ele sabia que tinha sido difícil para ela também, mas, ela não vivia dentro da cabeça dele, vivia fora, e sendo assim, não tinha ideia do pesadelo que sempre foi viver assim, com bichos internos que escalam seus pensamentos e alma, uns derrubando os outros para ver quem ganha. No estilo que vença o melhor. As vezes o melhor nem sempre é de fato o melhor. Ele falou que era assustador ter vários anjinhos e demônios dentro de si, todos falando o tempo todo, ao mesmo tempo. Como era difícil equilibrar-se. O quanto era difícil perceber que tomar decisões impulsivamente, faz parte do x do problema, e que saber disso é mais difícil ainda. Ele falou até que provavelmente quando disse adeus, siga a sua vida, estava em uma possível crise. Ele falou de tudo. De todos os sintomas que sentia. Do lençol mal amarrado, do fervor do rosto, e do suspiro: deus de fato existe. 


Mesmo sabendo que ao falar isso, se existia uma possível chance recomeço, esse foi aniquilado pelo medo que ela deveria sentir em viver eternamente com um ser assim, inconstante, mesmo que um bom amante. Contudo ele não teve medo, precisava dela. Precisava da mão e do afago. Precisava do carinho e cuidado, não como mulher, porque isso já não era há tempos. Precisava do cuidado pra poder seguir como uma pessoa qualquer e normal. Que poderá ter outros amores e até sentir outras dores, mas que tudo passará bem. Só falou tudo pra ela, porque ele não tinha mais ninguém. E ele não tinha coragem de falar disso, com ninguém que não fosse ela. Ele via nela, a confiança em pessoa e via em si, o pedido de socorro.


Paula do Vale