hoje reli todas as cartas que não tive coragem de enviar, Marcos me falou ao telefone. Seu analista falou que era preciso falar o que ainda não foi dito, mas, que ele sabia que cada um tinha o seu tempo. Talvez Marcos não tenha tempo. Seja o sim e o não o tempo todo. Não de dúvidas, mas, de medos. Medo de não ser bem visto, de ter que recuar, de ter que explicar o porque de não ter enviado todas aquelas coisas que eram escritas quase que diariamente, desde o fim da melhor fase da vida dele. Pelo menos era assim que ele descrevia: - estar com ela foi a melhor fase de minha vida. Porque ele tinha certeza que ela achava que simplesmente tinha sido abandonada, e deixada pra trás como esses sapatos velho que só dão calo.
Aquelas cartas era quase que um diário, e diários é o intimo em palavras escritas. É se expor sem volta. Ele pensava sim, que um dia, quem sabe, essas cartas poderiam chegar até a moça. Ou por acidente, ou por querer dele mesmo. Por enquanto ele só tentava criar coragem de não falar mais de amor com ela, porque isso cansa os ouvidos de quem acredita que foi descartado como um sapato fora de moda ou uma blusa desbotada. Na minha opinião, o analista dele deve ter razão mesmo, cada um tem o seu tempo de dizer o que sente, o que viveu e os medos que sentem em viver. O tempo do Marcos, deve ser Slow, desses de quando a cena tem que ficar dramática o diretor opta por dar esse toque. O meu tempo dele é lerdo e o dela é rápido. Ai sempre que nos encontrávamos ele dizia a mesma coisa: "- eu com um monte de papel velho com palavras velhas e sentimentos velhos, e ela com a ideia formada de que ela pra mim naquela época era só algo que não cabia mais, que não tinha espaço. Ela não sabe o quão de perto eu a acompanhei, o quão senti ao saber que ela retornava de uma viagem, depois de um dia cansativo de trabalho e eu não estaria lá, esperando ansiosamente e com o coração apertado como todas as vezes que ela tinha que ir, e rezando pra que tudo desse certo na estrada. Ela nem imagina que sempre que viajava era o doce motivo de minha conversa com deus e anjos. Ela nunca vai saber que pra mim, essas cartas eram desabafos de quem não podia falar. Ela talvez nunca saiba que eu a amava mesmo quando ela acreditava que não." Eu sempre escutava o Marcos, eu o entendia. É difícil querer desentalar, e continuar com uma espinha de peixe na garganta. Só que nesse caso, é uma coluna inteira. Uma coluna inteira de palavras.
Paula do Vale