domingo, 8 de setembro de 2013

Ninho

Hoje eu li um texto lindo. Ele dizia: "Foi um passarinho que me contou que não vale a pena guardar sonhos, nem esconder sentimentos. Que não é bom voar sozinho e que todo mundo quer formar um ninho. Eu concordo com o passarinho!" Achei de uma delicadeza ímpar. No fundo é isso. A gente passa a vida toda voando, de galho em galho, só procurando um ninho aconchegante pra acalmar as asas. Voar sozinho é até bom, eu gosto. Mas as vezes cansa, e quando você encontra um outro passarinho pra fazer companhia, os voos são mais proveitosos. 

Guardar sonhos e esconder sentimentos, eu acredito que cada passarinho tem o seu tempo. Cada um tem o tempo de tirar da gaveta aquele sonho da época do colégio, ou do ano passado. A gente no fundo segue o nosso relógio interno, e quando o despertador toca, as vezes a gente liga o soneca e deixa o sonho dormindo mais 5 minutos, ou pula da cama, abre a gaveta, tira tudo de dentro e começa a por em prática. 

 A gente também pode fazer isso com os sentimentos, porém,  esses sim são mais difíceis de falar. Para mim, pelo menos sempre foi. Falar de sentimentos, é falar com a alma, e falar com a alma sempre será difícil. Porque falar com alma, implica que o outro também tenha que ouvir com a alma, e hoje em dia é tão difícil existir esse diálogo, então a gente prefere esconder mesmo. Calar. Na verdade esconder, não é a palavra certa para isso, eu diria, deixar guardada na gaveta do lado onde se encontra o sonho. E como cada um tem o seu relógio interno, a gente fica esperando o despertador tocar. Cada um com o seu cada qual. Quando o despertador do sentimento toca, ou deixa deixamos na soneca, ou abrimos a gaveta, tiramos o coração e falamos. Nos expomos. Geralmente deixamos em uma soneca eterna, porque é mais fácil. É mais fácil guardar e calar, do que chorar como criança que tá sendo desmamada ou indo pro primeiro dia de aula. É mais fácil fazer o sentimento calar, do que amar com paixão. Cada relógio tem seu meridiano, linha do equador e todas as outras coisas que aprendemos nas aulas de geografia. Uns despertam mais rápido e com mais calor, outros mais devagar e com frio. Com aquela geada do amanhece, que vem junto com a neblina que não nos permite ver muitas coisas e andamos sempre cautelosos. E assim vai seguindo essa lógica. Até que um dia chegamos no calor de 40° de nossas emoções e sentimentos, e pra esfriar é mais difícil. Por isso que se tem tanto medo desse tal diálogo de almas. 

Certa vez me perguntaram o porque de me guardar tanto, me fechar tanto. De não chorar. Eu calei. Não tinha o que responder, porque no fundo eu sabia, mas não queria saber. Mas hoje eu sei que eu me guardava e fechava, porque o meu relógio interno tava sem pilhas, sem bateria. Ainda tá, na verdade. E hoje, depois de alguns muitos anos, eu finalmente respondi para essa amiga. Respondi exatamente isso: "que eu me fechava porque o meu relógio nunca despertava e eu não sabia a hora de falar de sentimentos. Que ele não despertava porque não tinha pilhas. Não tem pilhas" E é obvio que ela retrucou: "- se continua sem pilhas, como ele despertou?"  Eu sorri  e disse que a milhares de anos, descobriram um tal de relógio solar, que funciona com a luz do sol. E eu, só precisava sol pra poder fazer o despertador tocar. Só precisava disso, sol.  Ela obviamente me chamou de louca. Eu continuei dizendo que quando encontrei o meu sol, que também é alma, o meu relógio despertou e o sentimento falou. A alma falou e até encontrou outra alma, que também é sol, afim de papo. A gente até conversou um pouco, mas minha alma meio inexperiente foi embora e deixou a outra ali, falando só. Preferi dormir novamente. Mas só consegui uns 5 minutos de soneca, porque soneca é perda de tempo. Acho que minha'alma pensou:  - demorei muito pra acordar, como que eu vou querer dormir de novo? Ela riu. E volto pra lá, onde tinha encontrado a alma de papo legal. Riu tanto, riu alto, foi todo o caminho rindo e buscando. Só que o sol, que também é alma, já não estava mais lá, deve ter ido prosear por ai. E desde então minha alma espera no mesmo banco de praça, na esperança da alma de prosa gostosa aparecer. Minha amiga entendeu do que eu estava falando e sorriu,  porque achou lindo o que eu disse.  E eu sorri também, porque eu sei que foi lindo o que eu disse. Porque desde que minh'alma despertou, só sei falar com ela. E falar com a alma é bonito demais.

Paula do Vale