- Doutor, você me acha enigmática?
- Você se acha enigmática?
- Me acham enigmática.
- Mas você se acha enigmática?
- Não sei o que devo achar. Sou?
- Não sei, não conheço você. Pra mim você é enigmática sim.
- Isso é bom?
- As vezes.
Então ficamos em silêncio por um bom tempo.
- Se tenho um livro e não consigo entender sua linguagem, se não
consigo identificar as pontuações, se não consigo ler, qual o sentido de ter
este livro?
- Eu não sou um livro. Retruquei
- Eu sei.
- Então..
- Foi um exemplo. Ele disse com uma voz mansa.
- Eu sei. Mas vamos supor que eu seja um livro. E a minha
função é informar, me deixar ser lido. Isso quer dizer que se não faço isso,
deixo de ser livro, ou que viro um livro rebelde?
- Nem um, nem outro. Quer dizer que você será de difícil
entendimento. Que vai ser preciso te ler muitas e muitas vezes, certo?
- Certo
- Então tem gente que cansa dessa leitura pesada, tem gente
que gosta de leitura densas, tem gente que não gosta de ler. Vai depender de
quem é seu leitor e quem você quer que de fato te leia. Compreende?
- Sim. Eu tenho uma pessoa que eu gostaria que me lesse,
doutor.
- Quem?
- Uma pessoa. Lá do
Brasil. Ela até começou a me ler, sabe? Mas
eu fiz de mim uma outra edição mais complicada e ela não consegue mais me ler,
eu acho. Primeira edição foi simples. Não tão simples, mas era mais simples
sim. Ai teve a segunda edição mais complexa, ai teve a terceira e daí não tinha
pontuação, concordância. Embaralhei com tudo. Ai acho que ela cansou de me ler.
- Ela?
- Sim , ela.
- E você perguntou diretamente pra ela?
- Com essas palavras não.
- Porque você não pensa em algo?
- Eu já falei tudo, não tem mais o que ser dito.
- Certeza? Sempre tem o que ser dito.
- Eu sei.
- Então.
- Eu acho que ela me acha uma escrota. No fundo eu acho que
ela não acredita em uma palavra que eu digo. Ela acha que eu a trai com outras
pessoas. Mas eu não fiz isso, doutor. Porque eu não confio em ninguém, sabe? E ela
confiava em mim, eu não podia fazer que ela se transformasse em mim, e confiasse em ninguém. Eu fui
fiel. Era confusa, mas era fiel. Eu fiz sim, duas vezes. Todas em um mesmo período e com a mesma pessoa,
mas, não consigo ver que foi algo ruim. Porque se eu não tivesse feito isso, eu
não saberia que eu realmente gostava dela, entende? Porque será que é traição
beijar uma pessoa, pensando em outra? Porque enquanto eu beijava eu pensava
nela, mas ela nunca iria acreditar, daí eu não digo nada sobre isso.
- Como você sabe que ela não acreditaria?
- Já fiz ela sofrer
demais por não conseguir falar essas coisas e ela criar outras coisas na
cabeça. Ela acha que eu fui assim e pronto, já faz tanto tempo também.
- Você se sentiria melhor?
- Não sei. Acho que me sentiria culpada, ainda mais culpada. Porque já acabou e eu não disse. Se eu falo, ela vai ficar com raiva de não ter dito essas coisas.
- E ela? Você acha que ela não precisa saber dessas coisas pra
poder tirar suas conclusões?
- Até acho. Mas não tenho coragem de falar disso.
- Cada um tem o seu tempo. Você criará coragem aos poucos.
- Mas já é tarde eu penso. Porque o que adianta eu me expor
assim, sendo que não tem mais jeito?
- Isso só você terá a resposta. Só você poderá dizer. Mas tenho certeza que você se sentirá melhor.
- Eu também acho.
- Você a ama?
- Sim.
- Ela sabe disso?
- Sim
- O que ela falou sobre isso?
- Que sabe.
- Ela te ama?
- Ama. Ama como amiga, ela disse.
- Mas é amor também, certo?
- Sim
- O que você sente sobre isso?
- Quero que ela fique bem. Eu gosto dela. Não me importo de
ficar mal um tempo, mas vendo que ela tá feliz. Mesmo que me machuque. Ela já
sofreu por amor também, a gente se conheceu assim, ela sofrendo por outra pessoa. E depois eu fiz ela sofrer por mim. Dói saber que eu fiz ela sofrer. Não quero que ela sofra, só isso.
- Por que você mexe as pernas?
-Mania.
- Isso é ansiedade. Você mexe a cada segundo. Você bate a
perna o tempo todo. Isso é ansiedade. Por que você está ansiosa assim?
- A minha volta.
- Tá feliz?
- Não sei mais.
- Como assim?
- Vou encontrá-la.
- Isso é bom?
- Não sei mais. Porque vou encontra-la acompanhada.
- O que você sente sobre isso?
- Medo
- Medo?
- Medo de ter acabado mesmo.
- Entendo.
- Medo dela ter esquecido que eramos confidentes e
amantes e que a gente se amava, e que nesse mundo todo só confio nela.
- Isso pode acontecer.
- Já aconteceu eu acho.
- Ela pode não ter esquecido, já pensou sobre isso?
- Já.
- Isso de fato te deixa angustiada, certo?
- Não tanto
- Sim, deixa sim. Sua
perna esta mais inquieta.
- É o frio.
- Não é o frio, é você.
- É o frio sim. É o frio que eu sinto na alma se isso
acontecer de verdade.
- Dói?
- Muito.
- Porque você não fala com ela?
- Já falei de forma metafórica. Mas eu não consigo falar assim
pra ela. Eu escrevo.
- Pra ela?
- Pra ela, mas ela não vai ler nunca.
- Por que?
- Porque ela só poderia ler se tivesse interesse de me ler. Se
ela ler é porque tem interesse de me ler, caso não leia, quer dizer que ela não
tem interesse em me ler mais. E eu acho que ela não me lê mais não. faz tempo. Mas também, tem tantas outras coisas mais legais pra ler. Eu acho que eu também não me leria não.
- Você quer falar mais sobre isso?
- Não
- Acho que você poderia pensar mais sobre isso, certo? Refletir
mais, falar com ela. Porque isso te fará bem.
- Mas eu já falei algumas vezes, ela deve me achar uma chata
desesperada que só quer o brinquedo que perdeu. Ou por orgulho de levar um pé
na bunda, ou por ciúme dela ter outra. Mas não é. É só amor. Esses dias eu tava
pensando em ficar com ela,mesmo que ela fique com a outra. Mas acho que isso é
desespero. Não faria isso não.
- Porque desespero?
- Desespero de ficar perto de quem você ama, mesmo que a
pessoa não te ame mais, e seja apaixonada por outra pessoa. Desespero de querer
tá perto mesmo, sentindo o cheiro, nem falo de sexo, falo de carinho. Mas sabendo que os beijos não são meus. Isso
é desespero. Um dia desses eu tava nessas redes sociais, daí eu entrei na dela.
Vi fotos, muitas fotos. E ela tá apaixonada mesmo. Tinha uma que dizia que:
sabia que era amor, quando ao dizer boa noite, me veio uma vontade de dizer eu
te amo. Uma coisa assim. Era como se meu chão tivesse saído do lugar
Porque eu não sei mais nada dela. Ela sempre foi assim,
fechada. Quase nunca falava sobre ela, sentimentos, medos. Na verdade ela nunca
falou de medos. Eu até achava que ela não tinha nenhum, porque ela sempre foi
uma fortaleza. Mas ela disse hoje que tinha sim, que só disfarçava. Agora porque
disfarçar medo pra uma pessoa que tem tanto medo como eu?
- Você acha que essa mensagem poderia ser pra você?
- Não.
- Porque? Você disse que ela não fala dos sentimentos.
- As pessoas mudam. Eu mudei, ela mudou. Acho que ela deve tá falando sim, pra outra,
não pra mim. Acho que não é não. Tenho certeza que não. Queria que fosse, mas
não é não.
- Você disse que ela disfarçava medos.
- Ela disse que disfarçava medos. E eu falei que ela era
mestra nisso.
- Ela pode estar com medo?
- De quê?
- De você.
- De mim?
- De você fugir mais uma vez. De você inventar uma nova edição
de livro ainda mais difícil de ler.
- Não sei. Mas a pessoa tem medo e vai correndo pra outra
pessoa?
- Cada um reage como pode.
- Eu me fecho. Fujo. Acabo.
Ela fica com outra pessoa, não faz sentido.
- Pra você.
- É.
- Acho que você precisa refletir sobre o que foi dito aqui.
Até a próxima sessão?
- Não sei se venho.
- Por que?
- Não sou louca. Não sei se quero tomar essas
coisas. Não sei se eu quero que os meus amigos saibam que eu tomo isso.
- Eles não precisam saber.
Isso não é pra sempre, certo? É só até você conseguir equilibrar essa
realidade do seu passado quando era niña, com esse presente ainda conturbado.
Esquecer. Ou melhor, conseguir lembrar sem dor, sem angustia, sem sofrimento. Isso
é só por agora, pra acalmar o seu coração, diminuir essa angustia e esses pensamentos maus.
- Certo. Vai demorar
muito até isso acontecer?
- Não posso dizer, só depende de você.
- Preciso chegar no Brasil bem.
- Só depende de você. Aqui está. Três vezes ao dia, nada de bebida, nada de cigarros.
- Eu fumo.
- Muito?
- Eu tinha parado, mas precisei voltar.
- Quantos?
- Não sei
- 5,10?
- As vezes 30
- Não. No máximo 10. Ok?
- Ok.
- Pense sobre medo.
Certo? Pense sobre isso, medos.
- Por que medos?
- Porque precisamos matá-los.
Paula do Vale
Paula do Vale