terça-feira, 24 de setembro de 2013

Valsa para Primavera

Então você me deu a mão. Era uma segunda-feira chuvosa e eu tinha medo dos trovões. Era uma segunda-feira atípica. Então você me deu a mão e me tirou pra dançar uma valsa. Eu que não sabia dançar, me rendi a teu balanço e pisei algumas vezes nos teus pés. Era a valsa para primavera, você dizia. Valsa para a primavera chegar logo. Chegar de verdade e que o frio fosse embora de vez. O frio das almas e dos corpos. Mas daí você calou e lembrou que com a chegada da primavera, chegava também a minha partida. Minha inevitável partida.

Era dessas segundas incomuns, eu lembrando dela e você pensando em mim, como sempre. Nesta segunda a gente dançou e se olhou e falou sobre tudo, sobre tudo. Daí eu entendi que dançar valsa é como dançar a vida, com cuidado, com carinho e atenção. No fundo você estava me tirando para viver ludicamente. Você me chamava pra viver a vida e daí eu decidi me render mesmo. Viver mesmo! Me entregar mesmo! E dançamos a dança dos corpos nus e da vida despida, e tudo virou a dança da despedida. E você me disse: a vida é o que você escolhe dela, eu escolhi você. E se calou. Porque você já sabia que eu tinha escolhido outra coisa pra minha vida, e a dança da vida e despedida se transformou no choro calado. E você disse: vale a pena amar assim? sem respostas e com dor? E ai quem calou foi eu. Porque eu não tinha resposta pra isso. E você continuou falando, como quem vomitava palavras entaladas. Você falava de orgulho e de merecimento. E eu cada vez mais emudecida, porque eu quem tive culpa de tudo acabar com ela, e nesse exato momento eu que me questionava assim, e você sabia disso, eu apenas olhava você, seu jeito, seu olhar, sorriso, paixão e te calei. Calamos e deixamos o corpo falar.

Você dizia que não ia me esquecer, que ia me esperar, que ia me encontrar e eu já sabia que isso tudo era mentira. Mas também sabia que você não mentia por mal, é porque a gente fala essas coisas mesmo. Já me falaram outras vezes e era mentira. Daí eu não acreditei e só olhei pra ti. Você percebeu e olhou pra mim com aquele olhar de medo, eu conheço bem olhar de medo. Eu disse que você era linda, mas que a vida é algo diferente de fazer planos e você sorriu. Dizia que eu tinha medo de me entregar e eu falava que eu já tinha me entregado pra outros e não deu certo. Você dizia que era diferente e eu dizia que todos falavam a mesma coisa e daí você chorou. E eu respondi a tua pergunta sobre valer a pena amar sem respostas. Você lembra? Só disse que amar é assim mesmo, não ter respostas.Que a gente as vezes espera algo que não é, mas, continua amando assim mesmo. E você disse que precisava ir, já estava tarde. E eu pedi pra você ficar e dormir comigo. Você disse que não podia se entregar mais pra alguém que nunca seria tua. Você disse que o meu amor já tinha lugar certo, pessoa certa e que você estava no lugar errado. Eu segurei você e disse: fica. E você ficou. E daí eu percebi que você de fato se preocupava comigo. Você de fato gostava de mim. Dava pra ver no teu olhar. Você cuidou de mim naquele dia, porque eu só precisava de uma abraço e um beijo na testa. Você disse que tudo ia ficar bem e eu percebi que vale a pena amar do jeito que for e que de fato, qualquer amor é amor, mas eu não te amava e você sabia disso. E também sabia que eu não queria amar mais ninguém, o meu projeto era o apagar lembranças, esquecer passados e seguir em frente, de preferência viva.

Você acordou depois e eu acordei primeiro. E quando você acordou eu fui logo dizendo que eu não te amava, e que você sabia disso. Eu disse que amava outra pessoa, mas por ti eu sentia um carinho grande, que  sabia que magoava você, mas, prometi que jamais iria fazer isso com outra pessoa, porque eu já magoei muita gente nessa vida. Você estava certa, meu amor tem direção certa, pessoa certa, mas quero mudar a direção disso, como faço? Quero por pro nada. Pedia como quem te pedia uma formula secreta pra esquecer um grande e talvez único amor. E você disse que eu tinha que começar a enterrar o passado e viver o presente de verdade. Você disse que eu tinha que esquecer, e eu tentei seguir seu conselho. Juro que  tentei e estou tentando seguir. Eu disse: "- prometo que não quero magoar você, porém, ela me faz tão bem, mesmo na distância. Acho que não existe formula pra esquecer ela não." E você disse que é assim mesmo, que ninguém vive uma paixão e sai ileso, que ninguém ama sem sofrer um pouco, que era quase lei da vida, mas que depois passava. Que só era eu querer de verdade que passava, e eu disse que eu queria mesmo, porque doía muito. Você viu a lágrima no meu olho, enxugou, beijou meu olho, boca e disse que ia passar. Aí agora eu espero isso passar. Só espero isso passar, como quem espera um remédio fazer efeito. Só espero isso passar logo, mesmo sabendo que é pra sempre.

Paula do Vale