Finalmente a sensação do novo ressurgiu para menina! Ela sorria a ideia de refazer os planos, ainda que na mesma cidade que aprendeu a amar. Aprendeu amar a cidade em si e a quem mostrou a cidade. Refazia planos, ainda que os planos fossem quase os mesmos. Ter um canto pra chamar de seu, decorar com o seu jeito, reunir amigos, ouvir discos, contar histórias, cozinhar. Ela tava feliz pelo fato de que ainda que ela refaça os planos, ainda terá um filete de lembrança gostosa de quando os planos originais foram traçados.
Uma parede vai ser pintada de azul, com um adesivo descolado, o resto das paredes vão ser brancas mesmo. Cozinha orgânica, cama de tatame, guarda-roupa é uma arara, sofá em puff, almofadas coloridas, tapete gostoso, amigos! Planos! Ela começava a refazer seus planos, mas, sem peso de ter que mudar. Fazia com a leveza de ter começado a traçar tudo isso, com alguém que ela ama. Ainda que não seja normal, tão comum, a casa também terá parte de sua amada.
A menina queria ter coragem de pedir pra que ela ficasse. Que não fosse só a ajuda de achar, de pintar, de mudar suas tralhas. Ela queria no fundo, pintar a casa de calcinha e uma blusa surrada, que é pra que por um descuido a tinta caísse em uma e na outra, e a melassem cuidadosamente e carinhosamente. Ai elas iriam sorrir, se beijar e continuar pintando tudo, arrumando tudo, dando a cara pro novo lugar. A menina queria isso. Queria deixar tudo pronto e pegar a amada de surpresa com um desses jantares sem data especial. Ela queria poder ligar pra perguntar se o seu amor iria querer algo do mercado, porque ela não iria dar duas voltas. Perguntar o que ela iria querer comer no almoço. Ela no fundo desejava pegar essas gripes bobas, só pra ter o carinho e cuidado especial que sempre teve. Receber sopa na boca e beijo na testa. No fundo, a menina queria reescrever a sua própria história e ainda que reescrevendo, voltar para o: era uma vez.. Desenvolver toda história mais uma vez, e dessa vez chegar no: felizes para sempre. Porque existe pra sempre, e nem sempre as canções são certas. E como disse Pablo Neruda: morre lentamente quem se torna escravo de hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca,não arrisca vestir uma nova cor..morre lentamente quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não permite, pelo menos uma vez na vida, fugir de conselhos sensatos.
Ela não ligava muito não, ela tentava não ligar, pelo menos. Ela tava feliz pelo recomeço e ela sabe que um dia isso tudo pode acontecer. O que importa, é o novo. E o novo, nem sempre elimina todo o velho. O novo reinventa. Reestrutura. Remolda. Recolore. O novo as vezes só dá um novo sentido para o velho. O novo as vezes só faz com que o velho seja maior e melhor, mas muda apenas umas coisas que estavam fora do lugar, que é pra ter mais sentido. As vezes é preciso dar uma versão melhorada, pra tudo que um dia fez algum mal. O felizes para sempre é uma construção, as vezes dá certo e as vezes não, daí, no outro dia a gente reinventa o novo enredo do: felizes para sempre. Porque é preciso reinventar o feliz para sempre todos os dias, porque o pra sempre foi ontem, é hoje e poderá ser amanhã, só depende de nós, escritores de nossa própria vida.
Paula do Vale