E você perguntou o porque deu ainda estar assim, e eu respondi que não fazia a menor ideia. Você no fundo sabia que eu era assim mesmo, tinha esse jeito meio mulher, meio moleca. Que no fundo eu não tinha lógica nem manual, por isso que você gostou de mim. Você, por diversas vezes me disse isso: queria o teu manual. Como se não fosse fácil de me ler, como se fosse fácil ler os outros.
Você assistia a minha evolução e declínio com um certo aperto no peito, e numa tarde dessas disse que não ia não, que ia ficar e deu uma desculpa qualquer pra isso. Ai eu aceitei, precisava de um ombro amigo, e você tinha dois. No fundo, eu me apoiava em você e você se apoiava em mim, como esses escoros de prédio velho, que cai ao pedaço. Você sabia que estava caindo aos pedaços, e eu queria um pedaço pra por no meu peito. Não parecia nada mais justo que isso. Eu ali, colhendo teus pedaços e te remontando, como se fosse uma taça que quebrou por um descuido, e sabotando a limpeza e escondendo uns pedaços teus dentro de mim, pra preencher a falta que a falta fazia. Ai depois da limpeza e remendo que eu fiz em você, a gente viu que isso era até bom. Eu te remendando e você me preenchendo e a gente seguiu assim, vendo na outra a esperança de ser. Era fácil nessa parte, difícil foi quando você que teve que começar a fazer a limpeza e recolher meus cacos e remendar com essas colas que colam tudo. Ai tudo começou a desandar, porque o certo era eu te remendar e você me preencher, o inverso era desconhecido pra nós. E o desconhecido apavora.
Eu, no fundo, sabia que você tinha potencial para reemendar-me, pra colocar cada pedaço no seu divido lugar e jogar fora alguns poucos que nem eram tão necessários assim. Você também acreditava nisso, e a gente foi seguindo quase que em uma cooperativa. As vezes não dava certo, mas na maioria das vezes tudo corria bem. Eu que queria você por perto, sempre me remendando e redescobrindo e recolorindo e remontando, um dia disse que não queria mais ser reinventada não. Porque no fundo nunca tive paciência pra isso, porque pra remontar é preciso tempo, paz. É como uma arte de repor cada pedaço minúsculo em um lugar que teoricamente é dele, sem nem saber se é mesmo. Era quase um mosaico, o que você fazia em mim. Ai eu disse que ia me reinventar sozinha, porque se um dia você que decidisse ir reinventar outra pessoa, eu precisava já estar preparada. Ai fui me reinventar sozinha mesmo. Ai eu fui, troquei alguns pedacinhos já postos, e descobri que nunca tive muito dom em trabalhos manuais. Ai quis voltar da curta caminhada que tinha feito. Comecei voltando com desculpas bestas. Depois eu fui tentando falar aos poucos que não tinha dom em reinventar-me. Em seguida abri o peito e mostrei o trabalho digno de mestre que você já tinha feito dentro de mim. Dai eu falei que você voltasse a ser meu mestre artesão e você disse não. Dai eu entendi que todo mestre precisa de concentração pra sua arte, e quando a gente interrompe, assim como eu fiz, o mestre se desconcentra e ai segue pra reinventar quem de fato não tem medo, mas, tem voz, paz e principalmente, paciência.
Paula do Vale